A bem da Nação

OS JOVENS TURCOS

 Um manifestante na avenida Istiklal, nas proximidades da praça Taksim em Istambul, a 14 de julho.


 


Os jovens turcos cresceram na era da Internet, falam inglês e querem poder consumir álcool, se assim desejarem, em qualquer altura do dia ou da noite, ou terem a liberdade de beijar, na rua, aqueles que amam. Evidentemente, não renegam nem a sua fé nem a sua religião, mas é claro que entendem essas limitações como uma ingerência no seu espaço privado, na sua liberdade pessoal.


 


Não é a pobreza que os empurra para a rua, mas a perceção de que vivem num país onde o regime político está longe dos seus ideais


 


Tudo isso está também de acordo com o atual estatuto geopolítico e geoeconómico do país. A Turquia é membro da NATO já há muito tempo e demonstra um crescimento económico positivo e uma constante subida do nível de vida. E porque representa uma ponte entre o Ocidente e o Oriente, os Estados Unidos sempre lhe dedicaram uma atenção especial. E é por isso que, mesmo com o nível de vida a subir, os jovens saem à rua. É claro que não pedem pão, mas liberdade. Não é a pobreza que os empurra para a rua, mas a perceção de que vivem num país onde o regime político está longe dos seus ideais. A imagem da professora da Universidade de Istambul, vestida à ocidental, a ser agredida pelas forças da ordem, é o símbolo máximo dessas manifestações.


 


A Turquia aproxima-se do “fim da História”


 


Após um longo período de regimes militares, o Governo de Erdoğan é, na verdade, um regime civil. Mas há um paradoxo na governação do país. É justamente um regime político civil que põe em perigo a estabilidade e o equilíbrio trazidos pelos (antigos ditadores) militares.


 


Cada vez que há eleições neste género de países, são ganhas por um partido religioso fundamentalista que promete o regresso à tradição. Foi isso que aconteceu no Egito e vai ser isso que, muito provavelmente, acontecerá na Síria ou noutros lados. Isso diz muito sobre a imensa distância que ainda separa a Turquia do nosso mundo ocidental.


 


Para resolver essa enorme contradição, o mundo muçulmano precisa de uma revolução religiosa, semelhante à Reforma [protestante] realizada por Martinho Lutero, que possa estabelecer um equilíbrio entre a sua fé religiosa e a aspiração tipicamente humana de civilização e estabilidade. A Turquia não pode partir do zero. Tem uma tradição, basta olharmos para qualquer período da sua história ou lembrarmo-nos de Kamal Atataurk no início do século XX.


 


A Europa e os Estados Unidos podem ajudar a negociar uma solução de paz social para manter a estabilidade do país, numa zona cinzenta em termos de conformidade com as normas da democracia: nem democrática, nem antidemocrática. Este país poderá ter um grande potencial para se tornar, a médio prazo, uma grande potência, membro da NATO e da UE, um verdadeiro vetor de civilização com uma fronteira com o sempre problemático Médio Oriente.


 


A liberdade económica traz consigo a liberdade política. Na Turquia, os sinais do “fim da História” – tal como o imaginaram Hegel e Fukuyama – estão mais próximos do que noutros Estados muçulmanos. Por “próximos”, entendam não um ano ou dois, mas talvez algumas gerações. Mas o que é que isso significa à escala da História e da paciência de que o tempo dá provas em relação a nós? É absolutamente essencial que até lá o país continue estável.


 


in «Dilema Veche», Bucareste

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