Um bravo para o texto bem humorado de Inês Teotónio Pereira.
Excelente e subtil paralelo entre a juventude dos tempos de agora e os que defendem os princípios de uma certa política de reivindicação, acéfala, destituída de autocrítica, desresponsabilizada de deveres, reivindicadora desbragada de direitos.
Assente nos novos ventos de surpresa, utilizando os filhos como motivo central, para explorar diferentes concepções ideológicas, trouxe-me à lembrança a novela de Françoise Mallet-Joris “La maison de papier”, que narra o viver de uma família francesa – o da narradora – um tanto desordenado, em que os filhos ocupam o lugar central, numa geração em que a liberdade pessoal, o direito de crescer com independência, na aceitação inteligente da personalidade de cada um, são obtidos através da dialogação, da compreensão e da ternura, não obstante alguns atropelos de raciocínios ou condutas inesperados, que não escapam à ironia expressiva da narradora, livro de uma graça suave num mundo que se adivinha de conflito, mas a que não escapa o sentido humanista, juntamente com a irmanação com as filosofias democráticas.
Os filhos, num momento de inesperada reviravolta, também eu os utilizei, juntamente com o meu espaço caseiro, quando em 74 escrevia, na ânsia ingénua de reverter uma situação, que, naturalmente, prosseguiu, cada vez mais infrene. Reponho o artigo, do livro “Pedras de Sal”, saído em segunda edição no livro “Cravos Roxos”, de 1981, como um abraço de homenagem a uma jovem corajosa e inteligente, – Inês Teotónio Pereira – segundo parece definir o seu artigo, de crítica abrangente, que não se deixou seduzir pela vaga progressista da “intelligentzia” nacional:
«Reformas caseiras”
Cá em casa vai uma onda de euforia, por causa das reformas no Governo. Para mostrarmos a nossa adesão, além do telegrama da praxe e da colaboração altruística na obra de reabilitação social, pusemo-nos todos a fazer reformas domésticas.
O Salvador foi mesmo dos primeiros a aderir. Desatou num estendal de limpezas na despensa e na cozinha que ia virando tudo do avesso. Agora, no lugar dos nabos, encontro os esfregões das panelas e em vez das latas das ervilhas, os panos da louça e o livro da mercearia, onde assento os géneros de importação diária para pagamento mensal.
Quanto à Marta, exagera ainda mais na deslocação dos “bibelots”, quando me limpa o pó.
Igualmente as crianças se compenetraram do seu papel de obreiros futuros de uma nação tão plena de obras e de boas vontades.
Formaram um sindicato, encarregado de focar os seus pontos de vista e pôr os mesmos nos ii. Também dá direito a greve, mas isso já faziam dantes, mesmo sem sindicato. Só que agora somos todos camaradas.
Um pouco desorganizada ainda, vou assistindo a toda esta movimentação, de um modo expectante e direi mesmo apreensivo, pois se alteraram de tal forma as minhas estruturas domésticas.
Os ventos que sopram do governo central, em rajada varredora de todas as teias, levam-me a esperar uma reestruturação com base numa democratização igualitária, cheia de humanidade.
E noto com alegria a comparticipação nesses ventos das classes mais abastadas, desejosas, certamente, de se desfazerem das coisas supérfluas que têm lá por casa.
E eu assim me desfaço, embora não pertença às mais abastadas. Mas adiro, apertando mãos.
