À primeira vista, se a política monetária fosse verdadeiramente eficaz, uns quantos investimentos que uma descida da taxa de juro estimulara, entrariam fatalmente em liquidação logo que a taxa de juro voltasse a subir. E, se assim fosse, tal eficácia seria apenas transitória - um fogacho que só convenceria os mais distraídos.
1 - Presentemente, muitos Bancos Centrais tendem a privilegiar as estratégias monetárias (1) "em preço", com especial destaque para aquelas que visam o custo do capital (a instrumentalização das taxas de câmbio não colhe, hoje em dia, grandes favores).
A racionalidade subjacente a este tipo de estratégias assenta num conceito ideal, o de activo financeiro sem risco (AFSR) - algo próximo da dívida pública do país de residência do investidor, mas com propriedades teóricas bastante mais exigentes (2): quem o emite nunca incumpre; é fraccionável em quaisquer quantidades; é transaccionado sem custos; e o mercado secundário permite efectuar, instantâneamente, compras e vendas, sejam quais forem os montantes envolvidos. Para um investidor interessado únicamente em ganhos de capital e em resultados distribuídos, mas que nada mais pretenda dos seus investimentos, o AFSR é sempre uma possibilidade. E para que uma outra oportunidade de investimento se justifique, terá de "bater" a taxa de retorno oferecida pelo AFSR. Só que todos os outros investimentos, uns mais, outros menos, expõem o investidor ao risco - designadamente, o risco de mercado (a possibilidade de registar menos-valías) e o risco de crédito (a possibilidade de não conseguir cobrar os resultados distribuídos e/ou as mais-valías realizadas) - além de poderem acarretar custos de transacção. Assim, para que um dado investimento seja racionalmente preferível ao AFSR, os custos de transacção esperados e todos os factores de risco têm de ser ponderados - com a complicação adicional de uns riscos serem diversificáveis (3), outros não; de uns riscos poderem ser adequadamente compensados, se se reunir num mesmo portfólio investimentos com taxas de retorno negativamente correlacionadas - mas nem sempre tal estará ao alcance do investidor comum; de alguns riscos, mas não todos, poderem ser contratualmente cobertos por terceiro, o qual assume as perdas que ocorram daí em diante.
Para um qualquer investimento, o custo de oportunidade do capital é aquela taxa de retorno nominal que, uma vez ponderados todos os riscos e os custos de transacção esperados, iguala a taxa de retorno do AFSR. Quando, como acontece com a maior parte dos investimentos, a liquidez libertada não estiver indexada à taxa de retorno do AFSR, se esta taxa subir, alguns investimentos que seriam interessantes até então perdem razão-de-ser - e, simétricamente, se a taxa descer, oportunidades de investimentos haverá que passam a ser interessantes, quando antes nada as justificava. Descritos assim, estes estímulos "em preço" actuam do lado da procura agregada por efeito do ajustamento de portfólio, e é tradicional considerá-los especialmente eficazes no domínio das intenções de investimento em capital fixo (edifícios, equipamentos, etc). O seu alcance, porém, é muito mais amplo. Basta considerar que as empresas, também elas, têm de investir nos seus ciclos de tesouraria (4) - e que, por exemplo, uma descida na taxa de retorno do AFSR permitir-lhes-á financiar um ciclo porventura maior (5) (desde que, naturalmente, as margens comerciais e o risco permaneçam invariantes), sem que daí resulte prejudicada a rentabilidade esperada para os seus capitais próprios. Consequentemente, estes estímulos actuam, também, por disponibilidade de crédito - e, na medida em que permitam às contrapartes ciclos nominais mais dilatados, por efeito-riqueza.
2 - A questão intrigante é a de saber o que acontecerá àqueles investimentos que foram realizados tempos atrás, apenas, porque a taxa de retorno do AFSR descera, a partir do momento em que esta taxa volte a subir. Das duas uma: ou, tal como os ciclos de tesouraria, os investimentos são ajustáveis, reversíveis, e voltará tudo ao status quo ante; ou materializaram-se em novos meios de produção, logo, são irreversíveis e, em princípio, deveriam ser liquidados com prováveis menos-valías (risco de mercado), uma vez que deixássem de cobrir o custo de oportunidade dos capitais neles investidos. E assim sendo, a política monetária teria apenas efeitos transitórios, uma vez que tudo, tarde ou cedo, voltaria à situação anterior. Mas mesmo isto pressupõe a miopía de quem arranca com investimentos crendo, inocentemente, que a estratégia monetária que os justifica, uma vez iniciada, será mantida ad aeternum. Porém, se os investidores forem racionais, incorporam nas suas decisões a informação óbvia de que um qualquer estímulo monetário é, por natureza, transitório e reversível - e não se deixam iludir. O que isto quer dizer é que os estímulos monetários "em preço" seriam sistemáticamente ignorados nas decisões sobre investimentos perenes e, por consequência, ineficazes (6) pelo menos quanto a esta componente tão importante da procura agregada, dado que os investidores antecipariam sempre a natureza transitória e reversível das iniciativas do Banco Central. Só que à luz da melhor evidência, as coisas não parecem passar-se assim. Pelo contrário, os investidores respondem, umas vezes mais, outras menos, mas respondem sempre aos estímulos "em preço" e muitas dessas respostas são conscientemente irreversíveis. E são mantidas, ainda que a conjuntura deixe de as favorecer. Porquê?
Serão eles todos míopes, ou falhos de racionalidade? Não é de crer. Serão eles tão clarividentes que já antecipam todos os estímulos monetários possíveis durante a vida útil do seu investimento? Talvez, mas não deixa de ser uma hipótese bastante forçada e que nega eficácia a um qualquer estímulo monetário isoladamente considerado. Haverá imperfeições de mercado e idiossincrasias dos investidores que façam com que, em termos relativos, seja preferível manter o investimento a liquidá-lo com menos-valías? Há, concerteza - mas somos de novo remetidos para a míopia dos investidores e a psicologia das decisões económicas, o que nos levará a concluír pela ineficácia da política monetária (não seria, então, por prevalecer este ou aquele estímulo monetário que o investimento se faria ou deixaria de fazer). O interesse de muitos investidores não se resume, apenas, a mais-valías e resultados distribuídos? Assim é sobretudo quando o investidor é, antes do mais, o empresário que dedica ao investimento o melhor do seu tempo, por não ver outro modo de participar no processo produtivo e, consequentemente, na distribuição do rendimento. Mas, a esta luz, a explicação não se aplicaria aos investimentos financiados por subscrição pública de capitais, que em algumas economias têm enorme peso logo, não seria completamente satisfatória por mais esta razão. Seja qual for a pista que se siga, explicar a eficácia dos estímulos monetário "em preço" para relançar a actividade económica é um tema que permanece em aberto, apesar de ser um facto frequentemente observado - embora com nuances.
3 - Uma conjectura sobre o que se passará nesta matéria envolve, precisamente, o risco - ou melhor, o modo diferente como é apercebido o risco quando o investimento está ainda em fase de projecto, e quando já se encontra realizado e operacional (7). Quando ainda em projecto, a opção de investir tem valor temporal - e este facto, entendido como um risco (risco de crédito e risco de mercado), eventualmente, agravado por força de uma decisão precipitada, eleva o custo de oportunidade do capital. Nestas circunstâncias, o estímulo monetário "em preço" (que pode consistir numa redução deliberada na taxa de retorno do AFSR), ainda que deixe intacto o risco e o correspondente valor temporal (o que não é certo), fará baixar o custo de oportunidade do capital, colocando-o assim dentro da faixa de rentabilidade nominal esperada para alguns projectos. E esses projectos tornam-se investimento, com base em decisões perfeitamente racionais. A partir do momento em que a referida opção é exercida e o investimento, uma realidade já em funcionamento, a componente valor temporal desaparece de vez, e o custo de oportunidade do capital investido reduz-se em conformidade, ainda que tudo o mais permaneça constante (8). Seria, então, o "colapso" do valor temporal da decisão de investir que tornaria os estímulos monetários "em preço" eficazes - e que permitiria acomodar a inversão da trajectória da taxa de retorno do AFSR, sem pôr em causa a racionalidade de investimentos decididos quando as condições eram mais favoráveis.
Esta conjectura sobre o "colapso" do valor temporal, ligado agora à opção de ajustar (ampliando ou contraíndo) o ciclo de tesouraria, também explicaria alguma rigidez na resposta aos estímulos monetários. Em face de uma queda provocada na taxa de retorno do AFSR, por exemplo, concorrem duas circunstâncias: (i) do lado de quem compra, por força de obrigações contratuais ainda vigentes, a opção de dilatar prazos de pagamento pode não estar ainda no prazo de exercício; (ii) do lado de quem vende, consciente da natureza transitória e reversível dos estímulos monetários, a opção de dilatar as condições de pagamento oferecidas tem um valor temporal significativo, o que contraria o impulso para ganhar mercado à custa da ampliação do ciclo de tesouraria. Daqui, o compasso de espera que sempre acompanha qualquer estímulo monetário (9) (designado na teoria por Friedman lag).
A. Palhinha Machado
Agosto de 2003
NOTAS:
(1) - Por estratégias de política monetária, ou estratégias monetárias, designo os programas do Banco Central referidos a um dado horizonte temporal e que reunem, com uma coerência que possa ser fácilmente apreendida: (i) objectivos de política económica (como o pleno emprego, a estabilidade de preços, o crescimento económico ou o equilíbrio da balança das transacções correntes); (ii) estímulos monetários contidos numa escolha criteriosa de instrumentos; e (iii) regras de controlo sobre o grau de realização dos objectivos fixados.
(2) - O que mais se aproxima do conceito de AFSR é a facilidade de absorção de liquidez primária, mantida pelo Banco Central. Mas a ela só os Bancos têm acesso.
(3) - Isto é, o risco por unidade de capital investido num portfólio decresce na razão directa da variedade dos activos financeiros representados nesse portfólio.
(4) - O ciclo de tesouraria (ou ciclo nominal) pode ser entendido como o tempo que separa a obtenção de duas posições de liquidez sustentável consecutivas - entendendo-se por posição de liquidez sustentável aquela que, uma vez conjugada com todas as restantes componentes da restrição nominal, permite que a empresa obtenha, através de trocas monetárias, os meios de que necessita para prosseguir em actividade durante um dado horizonte temporal. O conceito pode ser fácilmente estendido a todas as restantes categorias de agentes económicos [Ver: A.P.Machado (2003)], "O que é isso de política monetária?".
(5) - Isto é, pagando mais prontamente aos seus fornecedores, ou concedendo prazos de pagamento mais dilatados aos seus clientes.
(6) - Exemplos semelhantes poderiam ser construídos para os estímulos "em volume". No entanto, o Banco Central defronta maiores dificuldades quando se propõe instrumentalizar o volume de dinheiro em circulação, ainda que circunscreva o seu propósito à liquidez primária.
(7) - A conjectura tem muitas semelhanças com o modelo putty-clay da teoria do investimento, mas são semelhanças meramente formais.
(8) - Sendo substituído, lógicamente, pelo valor temporal da decisão de liquidar o investimento, mas este valor temporal é agora medido num quadro de decisão completamente diferente.
(9) - Raciocínio semelhante poderia ser feito, também, para o mercado do trabalho. A tese aqui exposta tem, aliás, semelhanças várias com o modelo putty-clay da teoria do investimento. Mas as diferenças são substanciais. Enquanto o modelo putty-clay se propõe explicar a acumulação de capital tangível, atribuindo às características físicas dos bens que o concretizam a rigidez dos investimentos realizados, esta tese vê na percepção do risco a causa dessa rigidez. Por isso, analisa a decisão de investir, em abstracto, seja qual for o objecto desse investimento. E, por isso, é facilmente extensível ao ciclo de tesouraria e à importância das variações dos ciclos de tesouraria no desenho dos ciclos económicos.