A bem da Nação

Os Açores de hoje e os Açores de ontem

 


 


 


  Foto retirada do livro AMBIENTES AÇORIANOS, ( pág. 57) de Francisco Ernesto de Oliveira Martins


 


 


Os Açores de hoje são muito diferentes dos Açores de outrora. Estradas bem asfaltadas e cuidadas no lugar das de terra e pedras. Casas modernas, adaptadas com todo o conforto, substituíram as acanhadas e frias moradias de pedra. O alimento ontem escasso e caro, hoje, importado, pode-se obter a qualquer hora. As distâncias longas e intermináveis, vencidas com as embarcações, se reduziram para minutos ou poucas horas com os aviões. O estudo tornou-se mais acessível e prolongado, com o incremento de escolas públicas de qualidade e a Universidade dos Açores, em Ponta Delgada. E o mais importante, as conquistas dos benefícios sociais e da cidadania estão aí para todas as gentes, garantindo-lhes a dignidade e suprindo as carências do dia a dia.


 


Já os antigos açorianos não tiveram essa sorte. Lutaram muito para se fixarem na terra e tirar dela e do mar a sobrevivência. Enfrentaram os caprichos da natureza, as dificuldades do território, passaram fome. Por longos anos conviveram com o ostracismo que se abateu sobre as ilhas. Quando precisaram emigrar, regaram com suor e sangue a nova terra, ajudaram na construção de outras nações. Pela necessidade muitas vezes se anularam e se submeteram. Mas foram eles que propagaram a língua, a cultura e a fé do seu povo, como marcas de sua presença em todas as partes do mundo aonde chegaram. Resgatar a saga e memória desses antepassados é preservar a identidade do povo açoriano. Só assim as jovens gerações, do conforto e da tecnologia, podem avaliar a qualidade de suas raízes, quem são e de quem provieram.


 


Já os descendentes dos emigrantes, que nasceram e vivem lá fora, têm uma outra forma genética e psicológica de ser. São produtos da miscigenação e de outro ambiente. Não são os açorianos de hoje e nem os de antigamente.  É um novo povo, que se reconhece como filho da nova terra, apesar das origens ilhoas. No entanto, quando conhecem a história dos seus avós, aprendem a valorizar mais as suas raízes, a derrubar enganosos preconceitos.


 


Como açoriana que viveu a infância nos Açores e que voltou à sua terra já madura, como turista, vejo as diferenças das épocas. A importação de linguajar, modos e costumes, a adopção de outras comodidades e modernidades estrangeiras. A construção de casas com outra arquitectura, a inserção de diferentes hábitos alimentares e culturais são coisas que estão alterando perigosamente o perfil físico e antropológico dos Açores. Deve-se desenvolver sem perder a identidade. Talvez por isso, é que os governos regionais de certas ilhas, como Pico, Faial, São Miguel,..., investem forte nos intercâmbios culturais com Santa Catarina (Brasil). A finalidade é de fazer o caminho inverso da emigração, trazendo de volta a cultura e a arquitectura açorianas antigas, preservadas ali durante séculos graças ao abandono e esquecimento daquele povo colonizador que ocupou parte do sul brasileiro.  É uma tentativa açoriana de reavivar as raízes. É uma forma de mostrar aos Manezinhos de Florianópolis as suas origens.  


 


 Maria Eduarda Fagundes


Uberaba, 24 de Junho de 2009.


 


 Açores de hoje



 


 Flores, Açores 2007 ( foto de Maria Eduarda Fagundes)


 

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