O cínico compõe-se de comédia e sátira; o estóico de tragédia e epopeia; o impostor de mentira; o sábio de dúvidas; o ignorante de certezas.
Historicamente, o cínico começa por ser um asceta e termina por ser um gozador.
Não crê em nada: os deuses, o Bom, o Verdadeiro, o Justo, as convenções sociais, o prestígio, tudo para ele são palavras vãs. Em casos extremos, o cínico ignora o dinheiro, a cultura. Na generalidade, nega em absoluto qualquer arranjo do Império Universal, ou seja, agnóstico, tende para o ateísmo. Alheio ao sentido da verdade e incrédulo das certezas, o cínico conta apenas consigo próprio no que se refere à lucidez, ao voluntarismo, à força do desprezo a que vota tudo e todos. Ao grupo social normalizado contrapõe o individualismo, a auto-suficiência; fere de morte qualquer ideal e substitui-o pela concretização imediata dos seus próprios desígnios e pela imediata satisfação dos instintos. Desprendido, exibe atitudes provocadoras, manifesta múltiplos inconformismos, cria a sua verdade e define o seu próprio conceito de felicidade. As suas armas, a lucidez e o radicalismo que esgrime num meio que considera prenhe de ignorantes, de retóricos sem pensamento próprio, de poetas apenas preocupados com rimas por evidente falta de imaginação. A esse ambiente que despreza reage isolando-se progressivamente deixando à sua sorte –
mas sempre sob a sua distante e satírica crítica - uma sociedade formada por burocratas, politiqueiros, intriguistas, grandes proprietários e incríveis agiotas.
E, afinal, aquela sociedade imediatista, ímpia, desprendida dos conceitos éticos da bondade, verdade e justiça de que ele próprio se reconhecia partidário, foi essa mesma sociedade que o cínico alcandorou à sua própria crítica acérrima e da qual se isolou. E isso aconteceu quando reconheceu que a soma de todos os seus grandiosos «contra» não resultou sequer num ínfimo «pró». Derrubou, não construiu; ajudou a edificar o monstro de que teve que fugir assim confirmando a sua zanga com o mundo.
O estóico é o homem da lógica, da acção, da coerência, da razão pura e prática. É, sobretudo, o homem da virtude.
Virtude no sentido da firmeza de ânimo, elevação sobre as contingências, serenidade nas tempestades, voluntarismo a favor do próximo, identificação com o mundo que o rodeia. O estóico pratica a ética do seu tempo, não hesita em arcar com os «pecados do mundo» para identificar os problemas e lhes encontrar uma solução compatível com o bem-estar social. Dá o exemplo positivo, procura construir. A sua epopeia serve para dar fim à tragédia alheia. Não pede a paga, pensa no longo prazo, aproxima-se da eternidade.
O impostor pretende fazer a ilusão passar por realidade.
Paulo VI e o impostor
Para construir o seu «castelo de nuvens» não olha a meios para atingir objectivos. Mente e de tanto repetir a mentira acaba por se convencer de que ela é a verdade. Mas a mentira é viciosa e uma vez caído no vício da mentira tem que mentir cada vez mais para não ser apanhado em flagrante nas mentiras anteriores. Como o alcoólico, recusa a verdade que denuncie o cenário de ficção imaginado e reage agressivamente como se ofendido detentor de verdade duvidada. O impostor não é, por definição, um gatuno mas não tardará muito a recorrer a esse tipo de ilícito se esse for o meio para ostentar o estatuto que imaginou. A partir do momento em que já não controla a teia dos enredos imaginados, inicia um processo de revolta contra o mundo envolvente e se necessário apresta-se a construir a via que lhe garanta a inimputabilidade.
O sábio vive na intemporalidade, não necessita, não imagina o possível da indeterminação. Assistindo à realidade, dá-lhe uma justificação perene, intemporal, tendencialmente eterna.
As coisas não são inventadas; as coisas já existiam, os homens é que não as conheciam. Todas as dúvidas sobre a finitude dos factos, das coisas, dos conceitos. Busca constante da essência dos conceitos, das coisas, dos factos.
O ignorante, espécie comum, sabe tudo e portanto não reunimos as condições necessárias à sua definição.
Sim, eles andam todos por aí, na praça pública – no Rossio, na Concorde, na Djema el Fna, na Cibeles e nos Parlamentos de quem os tem...
Lisboa, Novembro de 2008
BIBLIOGRAFIA:
CÍNICOS E ESTÓICOS, ONTEM E HOJE – Antunes SJ, Padre Manuel, BROTÉRIA – Junho de 1966