Rugendas
Nos séculos XVIII e XIX os sertões do oeste mineiro foram paulatinamente ocupados pela pelos luso-brasileiros, que fundaram a atual sociedade triangulina. Vinham para preencher espaços, seguindo a política de Pombal que distribuía sesmarias, extensas parcelas de terras, àqueles que resolvessem desbravá-las por sua conta e trabalho. As dificuldades eram imensas, desde as pessoais às locais. Precisava-se de braços fortes para derrubar as matas, defender o território, e trabalhar o solo para o sustento.
Os colonos traziam suas tralhas e família. Usavam a madeira derrubada para construir, com o adobe, rústicas moradias, cercas e currais, sempre num local próximo a algum riacho ou nascente, para garantir a água do dia a dia. Os móveis eram simples. Uma mesa, poucos bancos, canastras, cama de palha, bacias. Quando tinham, traziam também pilão, máquinas de fiar e cozer e o algum raro tear. Conforto, médicos e lei ficavam a muitíssimas léguas de distancia, lá na "capitar".
No fogão de lenha, postado a um canto, colado à parede escura de fuligem, descansavam sobre a chapa de ferro, de dois a três buracos, tachos de cobre, panelas, chaleiras e caçarolas também de ferro, negras do uso. Raladores, artesanalmente feitos de lata de banha, e colheres de pau, pendiam de prateleiras de madeira. Tudo isso numa cozinha, levantada a meia-água, que dava para o quintal onde galinhas e porcos rastreavam comida.
Os precedentes grupos ameríndios e quilombos que habitavam a região foram aos poucos desbaratados, expulsos ou assimilados pelos fazendeiros e criadores de gado que chegavam das áreas auríferas do centro do estado. Eram paulistas, baianos, pernambucanos, cariocas, portugueses e açorianos que, sós ou acompanhados de seus escravos africanos e indígenas, após a corrida do ouro, vinham em busca de terras e espaço. Esse "meeting pot" de influências gerou a cultura do oeste das Minas Gerais. A geografia do cerrado, em platô, como um tabuleiro, favoreceu o desenvolvimento da agropecuária, hoje a nossa maior riqueza.
O valor das fazendas era medido pela qualidade do solo e extensão da propriedade, importantes para o cultivo e pastagem. Quando havia monjolo, quintal, casa e curral construídos, aumentava o valor do patrimônio. As terras virgens, ricas em árvores (aroeiras, jatobás, ipês, bálsamo, peroba rosa,...), davam boa madeira para levantar casas, mobiliário e carpintaria. Depois de desbastadas, terreno fértil para cultura. As capoeiras, matas secundárias, que já haviam perdido parte da sua fertilidade, por terem sido antes plantadas, eram menos valorizadas, serviam só para pastagens.
Era comum naquela época usarem a técnica indígena, a coivara, de derrubar arbustos e arvores, deixar secá-las e atear fogo, para obter área para plantar. Essa técnica e a falta do rocio desgastavam o solo e facilitavam a erosão do terreno. Os instrumentos de trabalho eram simples, facão, foice, enxada. O arado era pouco utilizado, pois boa parte das terras tinha um tipo de solo com camadas profundas mais pobres em nutrientes.
Com os índios o branco aprendia outras técnicas de caça, pesca e de sobrevivência na mata. E criava novos hábitos alimentares que lhe propiciaram a fixação e adaptação ao novo meio ambiente.
A economia principal dos geralistas daquele tempo era a criação de gado, vendido para as cidades maiores, principalmente Rio de Janeiro, tocado em grandes manadas pelos caminhos dos tropeiros.
No inicio de tudo, os homens do sertão, os fazendeiros e agregados, viviam nas fazendas com a mulher, filhos e escravos, de maneira muito simplória, mesmo os mais abastados. Tinham um sistema de produção familiar que lhes garantia a subsistência. Plantavam milho, arroz, feijão, mandioca, árvores frutíferas e hortaliças. Subsistiam do que produziam e da união e solidariedade que havia entre eles; do leite, dos queijos, da manteiga, da banha e das carnes de porco, de caça e gado, além do peixe que pescavam nos abundantes rios da região. O algodão colhido era beneficiado, limpo, cardado e transformado em fios que nos teares se convertiam em tecidos rústicos para uso doméstico e para vestir os escravos. Em janeiro, na altura da colheita do milho, cereal essencial na alimentação dos homens e dos animais da colônia, era a época dos mutirões, quando as mulheres da família e até de fazendas próximas se juntavam para fazer pratos e quitandas saborosas. O curau, os biscoitos, bolos e pamonhas recheadas de queijo ou lingüiça enchiam a mesa do sertanejo.
Quando estavam acomodados, era comum os fazendeiros mandarem buscar parentes e amigos para tê-los como vizinhos. O casamento entre eles era freqüente para promover laços familiares, aumento de propriedades, manter fortunas, e obter poder político ou material.
Os homens casavam por volta dos 20 a 35 anos. A cada dez rapazes só dois permaneciam solteiros, diferentemente dos centros maiores onde o imigrante do sexo masculino, em certa época, mantinha uma percentagem de 76% de celibato.
Nas áreas rurais, os grupos familiares se dividiam, quando os filhos casavam para constituir novo grupo familiar, em terras próximas, dadas ou herdadas pelos pais. Era a reforma agrária à maneira antiga!
Os tempos passaram e a maneira de viver nas áreas rurais mudou. Hoje os fazendeiros moram na cidade e as fazendas viraram empresas. O elemento humano foi substituído pela máquina e o romantismo sertanejo cantado nas modas de viola é cada vez mais raro de se ver!
Uberaba, 15/06/08
Dados bibliograficos: A Oeste da Minas ( Luis Augusto Bustamante Lourenço- 1998)