A bem da Nação

O VELHO E O NOVO MUNDO - II

 Francisco Gomes de Amorim - autoretrato (aguarela)


 


Voltemos à Europa, dando uma passadinha pelo Japão. Não fica no caminho geográfico, mas serve para ajudar a compreender o que, sem que se adivinhe o futuro, possa vir a acontecer.


Nas principais cidades do Brasil, a valorização imobiliária nos últimos anos – não se cogita em especulação – quase não tem acompanhado a inflação. Daí o negócio não parecer muito atrativo.


O Japão, depois do restabelecimento da indústria e da economia, a seguir à II Guerra, começou a "sentir" que havia pouca moeda circulante no mercado o que impedia um mais rápido crescimento. Pequeno território, pouca possibilidade de expansão, muito dependente de matérias prima importadas, julgou ter encontrado uma solução tipo "vapt-vupt": onde é que o povo gasta a maior fatia do seu salário, sobretudo o povo das cidades? Na compra de casa própria. Então a solução é inflacionar o valor dos imóveis, estender o crédito para 20, 30 ou mais anos e esse dinheiro "extra" vai inflamar a circulação monetária, esta a economia, etc. Pensado, feito. Pouco tempo demorou para se verem centenas, milhares de turistas japoneses viajando e gastando mundo afora, em sucessivas levas de "charters" e excursões tipo viaje now, pay later, aparecerem mais Toyotas e Suzukis, computadores e um monte de outras coisas, a maioria das quais se faz hoje na China. E os turistas? Entretanto desapareceram. E a economia do Japão? Tremeu. Tremeu porque o povo ficou endividado!


Estamos a chegar à Europa, onde o custo de um imóvel é algo quase inalcançável para a grande maioria dos jovens mortais que entram no mercado de trabalho. Ainda me lembro de há 50 anos ser avisado de que não devia pagar de aluguel mais do que 1/6 do meu salário! Hoje, em grande número de casos, são necessários dois a trabalhar para que um pague o aluguel e o outro a alimentação, comida, etc. Resultado: não casam, "juntam-se", descasam mesmo não casados, trocaram afinal de parceiro econômico e desbaratam as suas vidas.


Mas porque não compram casa, em vez de alugar? Primeiro porque o preço dos imóveis é altíssimo, e mesmo que tenham que dar só uma "entradinha", essa "entradinha" equivale muitas vezes ao salário de um a dois anos de trabalho! Dirão: mas o banco financia até 50 anos e juros muito baixos (estamos a falar da Europa, hein?) Que maravilha! O comprador fica a vida inteira a pagar um imóvel, raro chega ao fim do compromisso, jamais sendo dono do que quer que seja, e o banco... o banco está sempre garantido com a garantia real e com os juros, que é disso que ele vive. E como vivem os bancos!


Quem paga e se arruína: o povo, a classe média, o sustentáculo da nação.


Para quem vai de países terceiro ou segundo mundistas, pode até deslumbrar-se pelo aparente vidaço daqueles que vivem, por exemplo, em Londres.


Mas quando se começa a falar com eles sobre o que resta no bolso e quanto devem de mortgage (prestação do imóvel), cartão de crédito, etc., sente-se que o balanço está um tanto desbalanceado. Sempre a favor dos bancos, of course.


Não sabemos se foi assim que acabaram os grandes impérios, mas o exemplo do Japão dá-nos para pensar um pouco. Trasladando o assunto para o Brasil então...


Solução: acabar com os bancos? Com a inflação imobiliária? Imitar a Revolução Soviética de 1917 e dividir o número de quartos de todas as casas pelo número de famílias da região?


Nada disto parece resolver.


E então? Vamos cruzar os braços e deixar que tudo continue a acontecer talequalmente?


Não vamos. Soluções, em se querendo, aparecem.


A ver.


 


Rio de Janeiro, 29 de Junho de 2006


 


Francisco Gomes de Amorim

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