Um ano antes da Revolução dos Cravos, vim a Portugal, não direi de férias, que a vida passa depressa, no aumento constante das despesas, mas por interferência de um cunhado amigo, ao proporcionar-me o prazer de vir mostrar os meus dois filhos mais novos aos meus pais, regressados dez anos antes às suas origens, acabado o ciclo de trabalho do meu pai nas terras onde eu fiquei, para prosseguir, confiante na obra e nos homens que ajudaram a distinguir, desde há séculos, uma nação pequena, nas côdeas que lhe alargaram o tamanho.
Ciente da tal “frenética corrida contra o tempo”, não me passava pela cabeça que tantos empreendimentos que se faziam por lá, para segurar a terra em termos de desenvolvimento - apesar do sentimento de carência de produtos e subida de preços que se fazia também sentir - fossem algum dia por água abaixo, o ritmo de obras e aumento populacional inspirando confiança às pessoas crédulas, que se limitavam a viver, cumprindo.
Mas as pessoas crédulas sabiam reagir, e prova disso é o meu artigo “Sauve qui peut” de “Pedras de Sal” (1974), em 2ª edição em “Cravos Roxos” (1981), que transcrevo, em resposta ao artigo XICUEMBO - XICUEMBO (2)
«SAUVE QUI PEUT»
A voz corrente na Metrópole é que ela, a Metrópole, não necessita do Ultramar para nada. Se alvitramos um tímido protesto, lembrando todo um próspero passado comercial traduzido pela antiga e sugestiva expressão estilística «árvore das patacas», respondem-nos que nem isso explica este apego da terra-mãe aos pedaços de terra espalhados pelo continente africano e que vai contra a maneira de pensar não só da maioria dos pedaços de terra estrangeiros e agressivos, como dos próprios pedaços metropolitanos ainda mais agressivos e estrangeiros. Ficamos muito vexados e sentimo-nos oprimidos por tão pouco contribuirmos para o nível civilizacional da terra-mãe, apesar da árvore estilística.
Regressamos ao nosso rincão, que é como quem diz, à nossa terra africana, amada e portuguesa pelo nosso profundo sentir, e dispomo-nos a trabalhar ainda com mais amor, para conservar a jóia preciosa, legada pelos antepassados metropolitanos e esquecidos.
Deitamos, entretanto, um olhar mais vivo e mais extenso sobre o que nos rodeia. Verificamos que não é tanto assim. Mesmo agora, ainda contribuímos capazmente para o nível económico-cultural da Metrópole: em muitas repartições ultramarinas, os chefes incontestados vieram de lá, em comissão de serviço cheia de facilidades. Os bons contratos são lá que se obtêm, protegem-se com especial ternura os que de lá se dispõem a vir cá dar o seu corpo aio manifesto em comissão de dois anos, oferecendo-se-lhes as comodidades compensadoras, como sejam os bons carros e as boas geleiras que porventura nunca possuíram antes do sacrifício.
E no fim da comissão regressam à base, enriquecidos económica e culturalmente e afirmando, em legítima defesa dos seus filhos, que não precisam disto para nada e os de cá bem podem amanhar-se sozinhos.
Notaram, nos seus passeios para além fronteiras, um certo atraso para aquém delas, em relação às vizinhas terras inglesas, muito mais cheias de recantos paisagísticos e económicos explorados, e criticam-nos por não alargarmos a nossa rede de estradas e os nossos recantos económicos e paisagísticos. Não reconhecem que as tais comissões, cheias de facilidades compensadoras, em bons cargos citadinos, não favorecem a construção das estradas.
“Salve-se quem puder”: É uma boa divisa actual, aplicável a tantos de nós, tal como o são as geleiras e os carros à ordem e as disponibilidades orçamentais nas comissões de serviço ultramarinas.
A verdade é que uns meses depois, em 25 de Abril de 1974, se deu a Revolução demonstrativa de que, de facto, «a “Metrópole” não precisava do “Ultramar” para nada». Precisava, sim, da Europa, em sujeição de avidez deslumbrada, prova do que sempre fomos afinal, amantes do poder, no egoísmo do “sauve qui peut” mesquinho e antidemocrático, em que os defensores da democracia mais gritantes o são só enquanto não atingem o estrelato da riqueza, logo mergulhando, alcançada esta, na indiferença e no mutismo, propiciadores de outras manobras de realização que projectam as redes impunes dos secretismos, sob o “manto diáfano” da sombra propícia, apesar do tanto que se gritou, nos inícios, do “sem nada na manga” ou “tudo às claras”, ou “transparência”, lembro-me bem.
