Vou-me embora pra Pasárgada
Lá sou amigo do rei
Lá tenho a mulher que eu quero
Na cama que escolherei
Vou-me embora pra Pasárgada
Vou-me embora pra Pasárgada
Aqui eu não sou feliz
Lá a existência é uma aventura
De tal modo inconsequente
Que Joana a Louca de Espanha
Rainha e falsa demente
Vem a ser contraparente
Da nora que eu nunca tive
E como farei ginástica
Andarei de bicicleta
Montarei em burro brabo
Subirei no pau-de-sebo
Tomarei banhos de mar!
E quando estiver cansado
Deito na beira do rio
Mando chamar a mãe-d'água
Pra me contar as histórias
Que no tempo de eu menino
Rosa vinha me contar
Vou-me embora pra Pasárgada
Em Pasárgada tem tudo
É outra civilização
Tem um processo seguro
De impedir a concepção
Tem telefone automático
Tem alcalóide à vontade
Tem prostitutas bonitas
Para a gente namorar
E quando eu estiver mais triste
Mas triste de não ter jeito
Quando de noite me der
Vontade de me matar
— Lá sou amigo do rei
Terei a mulher que eu quero
Na cama que escolherei
Vou-me embora pra Pasárgada!

Manuel Bandeira (Recife, 1886 – Rio de Janeiro, 1968) é um valor incontestado da literatura lusófona e, mais concretamente, da poesia brasileira. "Vou-me embora pra Pasárgada" é a sua mais conhecida poesia mas está longe de representar o conjunto da obra formidável que nos deixou. Mas é neste poema que nos transmite a tão tipicamente portuguesa nostalgia dos lugares longínquos: isto aqui não funciona como eu quero, vou-me embora para outro lado à procura de melhor sorte. E é sempre lá longe que se encontra o bom, o belo; aqui nada funciona, tudo é uma miséria.
Será?
VIVER NÃO DÓI
Definitivo, como tudo o que é simples.
Nossa dor não advém das coisas vividas,
mas das coisas que foram sonhadas
e não se cumpriram.
(…)
Sofremos por quê?
Porque automaticamente esquecemos
o que foi desfrutado e passamos a sofrer
pelas nossas projecções irrealizadas,
por todas as cidades que gostaríamos
de ter conhecido (…)
Sofremos não porque
nosso trabalho é desgastante e paga pouco,
mas por todas as horas livres
que deixamos de ter para ir ao cinema,
para conversar com um amigo,
para nadar, para namorar.
(…)
Sofremos não porque envelhecemos,
mas porque o futuro está sendo
confiscado de nós,
impedindo assim que mil aventuras
nos aconteçam,
todas aquelas com as quais sonhamos e
nunca chegamos a experimentar.
Como aliviar a dor do que não foi vivido?
A resposta é simples como um verso:
Se iludindo menos e vivendo mais!!!
A cada dia que vivo,
mais me convenço de que o
desperdício da vida
está no amor que não damos,
nas forças que não usamos,
na prudência egoísta que nada arrisca,
e que, esquivando-se do sofrimento,
perdemos também a felicidade.
A dor é inevitável.
O sofrimento é opcional.

Esta explicação é de Carlos Drummond de Andrade (Itabira do Mato Dentro, MG, 1902 – Rio de Janeiro, 1987) e chama-nos à realidade de que Pasárgada nos alheara.
Foi pensando em Pasárgada que construímos um Império mas foi na realidade da vida que mantivemos a nostalgia da terra natal, ela também entretanto miragem do lugar longínquo, lura para o regresso sonhado.
Eis o mote para o caminho da diáspora e para o sentimento do centro. Lá iremos.
Lisboa, Maio de 2007
Henrique Salles da Fonseca