A CAUSA FINAL OU A DIFERENÇA ENTRE AS PAIXÕES QUE PERTENCEM À AUTO-PRESERVAÇÃO E ÀS QUE DIZEM RESPEITO À SOCIEDADE DOS SEXOS
A causa final da diferença de carácter entre as paixões que dizem respeito à auto-preservação e aquelas que se dirigem à multiplicação da espécie é digna de observação por direito próprio.
Uma vez que a realização dos nossos deveres de todo o tipo depende da vida e a sua realização com vigor e eficácia depende da saúde, somos muito fortemente afectados por tudo o que ameace destruir qualquer delas; mas uma vez que não fomos feitos para aceitar simplesmente a vida e a saúde, o mero gozo delas não é acompanhado de qualquer prazer real, para que não nos entreguemos à indolência e à inacção em virtude dessa satisfação.
Por outro lado, a geração da humanidade é um grande propósito e é necessário que as pessoas sejam motivadas para ela por um grande incentivo. Por isso é acompanhada de um grande prazer; mas uma vez que de modo nenhum foi concebida para ser a nossa ocupação constante, não é adequado que a ausência deste prazer deva ser acompanhada de uma grande dor. A diferença entre os homens e os outros animais a este respeito parece ser notável. Os homens estão sempre igualmente dispostos para os prazeres do amor e é por isso que a razão deve guiá-los quanto à ocasião e ao modo como devem entregar-se a eles. Se uma grande dor surgisse na falta desta satisfação, receio bem que a razão iria encontrar grandes dificuldades na realização da sua função. Mas os outros animais, que obedecem a leis para a execução das quais a sua razão pouco participa, têm as suas estações determinadas; nessas alturas não é improvável que a sensação de falta seja muito perturbadora porque o fim tem que ser satisfeito ou não será atingido, talvez para sempre; uma vez que a inclinação só regressa com a estação.
In «Uma Investigação Filosófica Acerca da Origem das Nossas Ideias do Sublime e do Belo», Edições 70, Setembro de 2013, pág. 60
