Os estudiosos do Zeitgeist bem poderiam investigar se «der Geist unserer Zeit» (o espírito do nosso tempo) não corresponde, afinal, a «eine Zeit ohne Geist» (um tempo sem espírito).
Sim, depois do imperativo categórico, o imperativo narcísico incessantemente glorificado pela cultura higiénica e desportiva, estética e dietética porque a ética contemporânea da felicidade é apenas consumista pretendendo optimizar as potencialidades do mercado que se deseja cada vez mais amplo, global.
A cultura moralista pregava infinitamente a entrega individual e o dever; a época pós-dever gera os novos imperativos da juventude que se pretende eternizar, da saúde que se legisla como um direito constitucional, da elegância física que se tem por um «must», do lazer que se tem por um modo de vida, do sexo que se apregoa nas suas mais variadas prácticas e nas mais imaginativas formas e feitios. Em suma, o apogeu da felicidade imediata, constante, universal.
Mas a cultura da felicidade desencadeia a ansiedade provocada pela vontade do prazer constante e ilimitado o que, por sua vez, leva à explosão do crédito ao consumo, ao endividamento pessoal, à escravização perante os titulares dos capitais que se pedem de empréstimo, à ira contra os capitalistas e seus «apaniguados», os banqueiros, a quem apelidam de agiotas semitas.
Hedonismo triunfante, travestem-se os antigos deveres em direitos substituindo o trabalho, base de suporte à sobrevivência, pelas férias, a cultura pelo entertainment televisivo, o dever de informar pelo «tele-massacre», a política em espectáculo; onde se sacralizava a abnegação, temos a evasão e a violência em zoom; onde se santificava a pureza das intenções, temos o abalo da violência mediática e a frivolidade das coisas. Os objectos e as marcas substituíram as injunções morais, prossegue-se na satisfação das novas necessidades sugeridas pelos «sacerdotes» do consumo, os marketeers.
O bem-estar tornou-se Deus e a publicidade o seu profeta porque ser é menor e o importante é ter, uma verdadeira revolução na prioridade dos valores.
E a questão que poderá ser aqui colocada com muita pertinência é a de saber por que não apontar agora um caminho. Porque, nesta fase, estou a tentar identificar o problema de que muitos se queixam – a inversão de valores – e porque só identificando os problemas lhes poderemos encontrar soluções. E porque a chave desta questão não é «coisa» menor, será certamente obra colectiva, geracional, não individual.
Deixo, contudo, uma sugestão: a das abordagens académicas que influenciem elites e que estas consigam fazer transbordar novas atitudes para fora da Academia.
Se assim não for, digamos com Karl Popper que «só nos resta ir para o Inferno». E como não aceito a existência do fatalismo determinista do destino, mantenho a esperança no futuro e daqui sugiro que todos pugnemos para que ele seja luminoso.
E depois desses trabalhos esperançosos, que Deus nos encontre justificados quando de nós se lembrar.
Lisboa, Junho de 2014
Henrique Salles da Fonseca
BIBLIOGRAFIA:
Gilles Lipovetsky, O CREPÚSCULO DO DEVER – ed. D. Quixote, 4ª edição, Maio de 2010

