A bem da Nação

O RENASCER DE UMA (quase) LENDA

 


Devia, o calendário, marcar qualquer coisa como 1967 ou 8.


Um pequeno veleiro, o “ARGUS”, um yawl de carangueja, cheio de carácter, com um comprimento de 25’ 6” – 7,77 metros, 2,44 m. de boca e 1,10 m. de calado, com quilha fixa, foi mandado construir em Luanda pelo Ten. Cor. Jacinto Medina director da DTA, a antiga companhia aérea de Angola, e lançado à água em 1952.


Passeava-se orgulhoso por aquelas águas e ao vê-lo navegar levava-nos, ao tempo de meninos, a pensar nos piratas, nas ilhas do Caribe e dos mares do Sul, a sonhar!


Quando soube que iria ser vendido o meu coração deu um pulo: “o meu barco”! E foi.


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Um dia, um muito querido primo, como irmão, na altura comandante do navio “Vera Cruz”, José de Azeredo e Vasconcelos, na sua passagem em Luanda, foi, com o orgulhoso proprietário do veleiro, dar a sua “opinião”! Gostou. Mostrei-lhe os planos do barco, e pediu que lhos emprestasse.


Algum tempo depois, em mais outra passagem por Luanda, chamou-me a bordo – onde normalmente eu já ia para ou simplesmente bebermos um copo ou jantar – o navio quase vazio depois de ter despejado mais uns milhares de militares para a guerra colonial, porque tinha um presente-surpresa para mim!


O carpinteiro de bordo, um homem habilíssimo, tinha feito uma maqueta do “ARGUS”, com uma precisão e um carinho, admiráveis.


Montou o barco, à escala de 1/10, precisos, como se estivesse a construir um autêntico veleiro de mar. Vejam como fez o lançamento da quilha e cavernas:


 


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Ao ver aquela pequena maravilha fiquei sem palavras (com a autorização do comandante, claro, dei um dinheirinho ao artista – nem tenho ideia quanto terá sido!) e quando regressei a casa levava nos braços, com o cuidado de quem carrega um recém-nascido, aquela jóia linda, com dois beliches com colchões (!) na cabine, um pequeno abat jour na mesa, com uma lâmpada que se acendia, um luxo.


 


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Já lá vão mais de quarenta e cinco anos! Quase sempre esteve em lugar de destaque na nossa sala.


Mas a vida foi peregrina. Entretanto tive que ir para Moçambique três anos e meio, regresso a Angola, mais um ano, foge – foge mesmo – para o Brasil – primeiro no interior do Estado do Rio, depois São Paulo, a seguir uma estadia em Portugal, e finalmente estabilizado (?) no Rio de Janeiro desde 1995.


O “ARGUS”, muito frágil, sempre navegou nessas viagens, embalado, e como é de calcular foi sofrendo um trauma aqui, outro além, peças frágeis, como o cimo dos mastros, bujarrona e outras, deixou de caber na casa onde hoje vivemos e foi dado a um dos filhos.


Pouco dado à náutica e sem muito espaço para colocar a belezura, foi jogado numa caixa, num canto e o tempo se encarregou que o preservar-estragar.


Velas rasgadas, dois rombos no casco, brandais cortados para se poderem retirar os mastros, todos os “cabos” – escostas, adriças, carregadeiras, etc. – num bolo tão emaranhado que levou dois dias para separar, um monte de outros problemas, e etc.!


Faltavam ainda uma série de pequenas peças, algumas ínfimas, e tudo teve que ser refeito.


Foram quase três semanas de trabalho, dois pares de óculos, um em cima do outro, face à pistosguice do “restaurador”, e finalmente o “ARGUS” está pronto para novo lançamento... não à água mas à exposição.


Agora já está com os cabos arrumados no convés como mandam os velhos e bons marinheiros:


 


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O Nr. 29 do Club Naval de Luanda, irá qualquer dia lançar ferro, definitivamente, na sede deste clube, descansar na terra onde navegou imponente, e esperamos que viva ainda muitos e muitos anos. Está prometido, consta do meu testamento – verbal, que não tenho escrito –e oportunamente fará a última viagem, “triunfal”, para Angola.


Por enquanto fica um tempo aqui em casa, entre um quadro brasileiro e outro angolano, para eu olhando para ele gozar, enquanto deixo os sonhos me levarem para o tempo em que cruzávamos aquelas lindas águas da Baía de Luanda e do Mussulo, os filhos pequenos a adorarem os passeios, muitos amigos também, enfim parte da vida que o “ARGUS” guarda, não só para mim como para os primeiros donos.


E continua a envergar, no topo do mastro principal a flâmula do C.N.L.!


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Rio de Janeiro, 10-Dez-14


Francisco Gomes de Amorim


Francisco Gomes de Amorim

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