UMA VEZ O «OXI» DADO…
Tendo os gregos «oxi» dado de modo inequívoco, como vamos nós, os credores, lidar agora com a situação?
Não nos cumpre duvidar da decisão democraticamente tomada; podemos, contudo, duvidar do acerto da decisão. Eis por que me lembro de que, perguntados, os «eleitores» de há cerca de 2000 anos optaram pelo indulto a Barrabás.
E achei «graça» a um grego que apareceu há dias num telejornal por que passei enviando um recado a Mário Draghi em que lhe dizia qualquer coisa como: - O Senhor Draghi ouça o povo grego e não falte com dinheiro aos nossos Bancos pois nós precisamos de continuar a comprar coisas.
Eu julgo que qualquer cidadão do Burkina Faso seria perfeitamente capaz de enviar o mesmo recado com igual legitimidade, idêntica veemência e exactamente pelas mesmas razões.
Então, o raciocínio do entrevistado grego deve ter sido assim: - Eu não pago os empréstimos que me fizeram mas quero que continuem a mandar-me dinheiro para eu comprar umas coisas.
E o Senhor Mário Draghi, extremosamente magnânimo, até tem por mandato esbanjar o dinheiro que uns pândegos ricaços por lá lhe puseram nos cofres do BCE.
Nonsense – e não me apetece dizer isto em grego.
De tão absurdo, copio o humor que circula na nossa Internet:
«Querida Caixa Geral de Depósitos,
Tem sido muito complicado pagar os empréstimos que eu pedi. Ontem, durante o jantar, falei do assunto com a família e sufraguei a coisa. Só o mais novo votou a favor do pagamento da dívida. A esmagadora maioria votou contra qualquer tipo de penhora sobre os bens que comprei com o vosso dinheiro. Posto isto, espero que a vossa Administração tenha em conta a votação lá de casa e se acalmem com essa coisa das cobranças. Afinal, somos uma democracia.
Cordialmente,
Rodrigo Moita de Deus
PS: Este mês estou um pouco apertado por causa das férias. Queiram por favor transferir algum para o NIB do costume. Obrigado.»
Como já ficou provado na crónica anterior, não tenho qualquer razão para confiar na minha bola de cristal que previra um «vai» (sim) e saiu um «oxi» (não) mas como o novo Varoufakis se chama Euclides Tsakalotos, tenho todos os motivos para acreditar que o futuro grego seja risonho.
Non sense? Que ideia mais absurda! São apenas os meus neurónios que estão oxidados.
Perguntada, a minha bola de cristal nada me diz sobre se dentro de dias não serei surpreendido ao acordar com alguma notícia que me diga que em Atenas os militares tomaram o Poder numa nova «pinochada». E também lhe perguntei se depois não teremos o Baltazar Garçon a enviar mandatos de captura - mas aos costumes a bola disse nada.
Perguntei-lhe também como hei-de encarar tudo isto sem ser pela via do absurdo mas aí a bola foi peremptória: na situação grega não há alternativa ao absurdo. E, pior, diz-me que o absurdo já vem de longuíssima data, desde a queda do Império Otomano.
7 de Julho de 2015
Henrique Salles da Fonseca
