A bem da Nação

O POVO E O DIVINO

 


 


O Doutor – advogado e bom pai de família – era devoto e desejava sinceramente que a Graça do Senhor estivesse com todos. Assim, era frequente expressar esse sentimento cumprimentando aqueles por quem passava com a expressão «Dominus tecum». E porque naquelas épocas a Missa era celebrada em latim, não lhe passava pela cabeça que os outros não soubessem o significado do cumprimento.


 


Mas o Doutor teve que começar a admitir que mais valeria a Igreja passar a celebrar em português comum quando, ao fim de alguns anos do dito cumprimento, o sapateiro da vila lhe saiu aos calcanhares improperando que “Domesteco” era ele mais toda a família, que isso não era coisa que se chamasse a gente honrada que ganhava a vida a trabalhar, que fosse para o Diabo e que este o carregasse, etc.


 


Se formos em busca da mais profunda razão histórica dos factos sequentes, talvez devamos creditar a este sapateiro e seus iguais a convocação pelo Papa João XXIII do Concílio Vaticano II em que a Missa passou a ser celebrada nas línguas comuns.


 


 


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O meu amigo Padre Henrique era Prior numa Paróquia de Lisboa mas à tarde fazia serviço no Patriarcado quando este funcionava ali ao Campo de Santana.


 


Com a pressa citadina, o meu amigo almoçava quase sempre de pé ao balcão dum estabelecimento que existe lá no meio do jardim público. Não tardou que começasse a reparar que havia outros clientes com a mesma rotina tanto de horários como de ementa. Por exemplo, uma Senhora que todos os dias pedia um galão morno e uma “sandes mística”.


 


Frente do Patriarcado, não parecia muito mal atribuir tal conteúdo à “sandes” e é claro que o meu amigo nunca corrigiu a Senhora.


 


 


*  *  *


Este meu amigo era pessoa de elevada cultura e na sua igreja, para além da actividade religiosa propriamente dita, realizavam-se inúmeros actos culturais. O restauro do órgão correu por conta dos paroquianos e vinha gente de fora para tocar e ouvir o que nele se tocava. No chamado “salão paroquial” realizavam-se conferências e o templo era também um autêntico museu de arte sacra.


 


Sabendo-se lá no Patriarcado que numa capela em Sintra tinham sido descobertas umas tábuas policromadas, foi decidido que o meu amigo tentasse descobrir do que se tratava.


 


Lá chegado, perguntou ao casal guardião da capelinha pelas tábuas policromadas mas pelo ar de dúvida estampado nas caras logo decidiu mudar de linguagem e perguntou se eles alguma vez tinham visto umas tábuas pintadas. Que não, que há muito tempo não havia ali obras, que, pelo contrário, as tábuas estavam todas a precisar de pintura. Mudou novamente de discurso e perguntou se eles alguma vez tinham visto umas tábuas com desenhos.


 


- Ah! Só se forem aquelas tábuas que estão lá na cave em cima duns tijolos para os registos dos baptismos não se molharem com a água do chão...


 


Descidos à cave, lá estavam os velhos livros em cima dumas tábuas sobre tijolos. Arredados os primeiros livros, logo apareceu uma representação do Espírito Santo e de tábua em tábua o meu amigo ia ficando cada vez mais espantado com o tríptico que ali estava desmontado e abandonado.


 


Agradecido, logo contactou por telemóvel o Patriarcado confirmando que se tratava de alguma “coisa” que merecia sério estudo e que era conveniente ir lá buscar as ditas tábuas. Contudo, para que os livros não ficassem no chão, que levassem outras tábuas para substituir aquelas.


 


No final do que o guarda logo desabafou como que em tom de justificação: - Se o Senhor Padre tivesse perguntado pela tábua da pombinha eu tinha dito logo onde ela estava...


 


                       


 


Recolhidas as tábuas ao Patriarcado confirmou-se que se tratava de um tríptico há muito desaparecido de autoria atribuída a Grão Vasco ou a um seu discípulo.


 


Quantas «tábuas das pombinhas» continuarão por aí fora a fazer de prateleiras em cima de tijolos?


 


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Outro amigo meu ouviu dizer que numa casa em Évora havia uns frescos que deviam ser medievais ou renascentistas e que seria importante fotografá-los antes que se degradassem e não fosse possível reconstitui-los.


 


Munido duma máquina de última geração, apresentou-se na tal casa, identificou-se ao caseiro e pediu autorização para ver os frescos.


 


- Ver o quê?


- Os frescos, as pinturas.


- Mas oh meu Senhor, as pinturas não estão frescas. As obras foram feitas há muitos anos e já está tudo seco.


 


Este caseiro devia ser da mesma estirpe cultural daqueloutro para quem a Companhia de Jesus eram a vaca e o burro no Presépio.


 


 


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Nem sempre é fácil o relacionamento do povo com o Divino e seus representantes na Terra.


 


 


  Henrique Salles da Fonseca

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