A bem da Nação

O MEU MELHOR AMIGO - 1

 


 


São 6 da manhã e ouço-lhe a respiração tranquila. Depois de lhe massajar a perna esquerda inchada, dorme socegadamente. Hoje, 7 de Novembro de 2012, faz a primeira sessão de quimioterapia.


 


Tudo começou em 18 de Setembro quando procurei saber por que razão ele não me fora acordar. Estava deitado no chão da sala, inerte e quando lhe fiz uma festa olhou para mim mas não se levantou. Achei estranho, abri a porta para o jardim mas continuou deitado. Mais estranho ainda. Abraçando-o, ajudei-o a levantar-se e logo vi que tinha os dedos da mão e da perna esquerdas tolhidos. Não é necessário ser-se médico para perceber que tivera uma trombose.


 


ALERTA!!!


 


Acordei a Graça (que fazia anos nesse dia), vestimo-nos num instante e fomos de abalada para o hospital mais próximo onde fomos recebidos imediatamente, sem qualquer hesitação ou formalismo burocrático.


 


Confirmado o meu diagnóstico, deu baixa e ficou ao cuidado de quem sabe o que faz. Foi então – e só então – que tratámos da burocracia. Só no dia seguinte nos saberiam dizer algo mais...


 


E disseram! O trombo era constituído por plaquetas velhas que não tinham sido naturalmente substituídas por novas; tinha uma massa anormal sobre o baço que só abrindo se poderia saber do que se tratava. Autorizávamos a operação?


 


O que havíamos de fazer quando ele nos acabara de receber radiante por nos ver nessa manhã depois de desfeito o trombo? Se não se continuasse a investigação, a ocorrência de novas tromboses seria o cenário mais provável... Demos a autorização e a operação far-se-ia ao final desse dia.


 


Tiraram-lhe o baço, fizeram-lhe uma biopsia a um quisto e mandaram tudo para análise. Só dentro de cinco dias teríamos resultados.


 


Em casa, a espera foi ocupada, cheio de remédios, na dolorosa convalescença...


 


As análises eram negativas relativamente aos nossos temores e a vida continuou em recuperação até ao dia em que acordou com as pernas inchadas.


 


Lá fomos outra vez para o hospital e logo à primeira apalpação nos indicaram vários gânglios inchados. Prognóstico reservado. Mais análises e nova espera de cinco dias.


 


Receber um telefonema do hospital a pedir para lá irmos conversar é o mesmo que dizer que o cenário era mau: linfoma!


 


Do mal, o menos: se o linfoma fosse de células T, a solução passaria pelos cuidados paliativos; sendo das B, a quimioterapia é aconselhável.


 


Fez hoje de manhã a primeira sessão.


 


São 11 da noite e o meu melhor amigo está calmo, a dormir; eu estou alerta para acudir ao «Caramelo», o meu cãozito.


 


Lisboa, 7 de Novembro de 2012


 


 Jardim da Estrela, Outubro de 2008


Henrique Salles da Fonseca

0