
Beatriz Costa, a menina da franja
Mas nem só os prevaricadores e opositores lhe tornavam difícil o exercício do cargo. A direita ideológica não desarmava. Enquanto a esquerda planeava sublevações, a direita socorria-se da intriga. Os ataques ao Governo sucediam-se. O tenente Carvalho Nunes, que reunia a dupla qualidade de ajudante de campo do Presidente da República e membro destacado do movimento nacional-sindicalista, andava de quartel em quartel, passando mensagens, que nunca se sabia se provinham de Belém ou de Elvas[1]. As referências que fazia à orientação política do governo nada tinham de lisonjeiro, o que alguns tomavam como sinal de desentendimento grave entre a Presidência da República e o Chefe do Governo[2]. O ataque que Domingos de Oliveira menos esperaria, a avaliar pelos termos a que ele se refere, partiu de Farinha Beirão, comandante da GNR e velho companheiro da Cruzada Nuno Álvares. Beirão apresentou um memorando no qual apontava os “17 males” que o governo não tinha debelado e propunha soluções. As soluções eram de enunciado simples: demissão de grande número de funcionários tidos por negligentes ou por desafectos e de alguns gestores acusados de depredação de dinheiros públicos. Farinha Beirão era particularmente crítico em relação ao Ministério dos Negócios Estrangeiros, cujo secretário-geral acusava de “incompetente”. Domingos de Oliveira deu-se ao trabalho de responder ponto por ponto, ou mal por mal, ao arrazoado do seu camarada de armas. Quanto a Teixeira de Sampaio foi categórico: “o Secretário-Geral do Ministério dos Negócios Estrangeiros não é incompetente. A afirmação é imbecil e mete nojo”. Domingos de Oliveira provou, na circunstância, que sabia reconhecer mérito a quem o tinha.
E, no calor do estio de 1931, Domingos de Oliveira sentiu a sua reserva de paciência prestes a esgotar-se. Enviou um telegrama a um amigo que residia em Paris e pediu-lhe para reservar alojamento num hotel em nome de Dr. Costa Oliveira. Instalado no tradicional e modesto Peyris, manteve-se incógnito durante dez dias, que aproveitou para rever Paris longe do bulício e das pressões do quadro político lisboeta. Tempo para pensar e para tentar resolver o conflito cada vez mais agudo entre a sua autenticidade e o papel ingrato que a “forquilha” Carmona-Salazar lhe impunha. Que fazer: teimar na sua linha consensual, sair, zangar-se? O “Dr. Costa Oliveira” que, na companhia do seu amigo, deambulava pela Cidade das Luzes não era apenas um chefe de governo incógnito; mais do que isso, era uma nova reencarnação de Hamlet.
Entretanto, de Lisboa chega um telegrama, informando o “Dr. Costa Oliveira”, que Pais de Sousa, concunhado de Salazar, aceitava a pasta do Interior, desde que ficasse a seu cargo a censura à Imprensa. A máscara do “técnico de contas”, cai para revelar o verdadeiro rosto dominado pela ambição de poder. Com o domínio do Interior e do Orçamento, o governo seria cada vez mais de Salazar e cada vez menos dos militares. Qualquer tentativa de retrocesso nesta matéria por parte de Domingos de Oliveira levaria a um choque com Carmona, a quem se sentia ligado pela lealdade da Cavalaria e por uma amizade que vinha da Escola do Exército. Só havia um caminho: o “fiat”. Ali, em Paris, decidiu-se pois o futuro da Pátria para os quarenta anos seguintes.
Carmona festejou o regresso de Domingos de Oliveira como se do filho pródigo se tratasse. E para assinalar publicamente o seu apreço pelo Chefe do Governo foram os dois juntos ao teatro de revista no Parque Mayer, ver, ao vivo, a famosa Beatriz Costa. Houve festa no Maria Vitória; choveram as graças dos compères; Beatriz cantou e encantou melhor do que nunca e, no dia seguinte, toda a gente sabia, dentro e fora dos quartéis, que Carvalho Nunes só servia mesmo para abrir e fechar portas.
Domingos de Oliveira guardaria o programa do espectáculo com anotações sobre as graças que os compères lhe dirigiram.
(continua)
Luís Soares de Oliveira
[2]
[2]O zelo de Carvalho Nunes deu origem a uma versalhada que corria em paralelo pelos quartéis e que infelizmente não podemos reproduzir por falta do original. Lembramos de cor a primeira quadra a qual rezava assim. “Foi em Tânger ou em Tunes/ que tu, oh Carvalho Nunes/ ganhaste as medalhas que no peito comportas?/ Não, Foi a abrir e a fechar portas.”