A bem da Nação

O MEU AVÔ E SALAZAR – 4

 (*)


 


A Cavalaria foi o campo de aplicação certo para um carácter formado à sua imagem e semelhança, por antecipação. A educação de gentil-homem, cortês, justo, solidário e protector dos fracos e humildes estava-lhe na massa do sangue, herdara-a de sucessivas gerações de dedicados servidores do Estado, obedientes a Deus e fiéis à Igreja. Também destes, zeladores escrupulosos do património público, herdaria o sentido da probidade na gestão de dinheiros públicos. Da mãe Violante, teria talvez herdado o espírito de iniciativa e a intrepidez. D.ª Violante, quando jovem, abandonara de casa de seus pais para casar com o meu Bisavô, gesto que, em plena vigência da moral vitoriana, denota grande ousadia e poder de iniciativa por parte de quem o praticou.[1] O jovem Domingos dilataria as virtudes herdadas de sua mãe, exercitando-se na transposição de obstáculos naturais e nas descidas de barrancos e ravinas, arrepiantes, tanto para o cavaleiro como para o cavalo, nos duríssimos “exteriores” que praticava nas terras sitas por detrás de Santa Maria de Belém. O cavalo ligou-o à natureza, livrou-o da debilidade urbana e dotou-o de notável força anímica.


 


A passagem pela Escola do Exército não lhe causou pois qualquer trauma mental sensível. A Bemposta não seria propriamente um émulo de Angers mas reproduzia alguns traços da famosa academia francesa. Seria mais fraca no domínio das Humanidades e da Matemática, mas não menos exigente no domínio da Equitação. O espírito que as inspirava era o mesmo – “graça e valor” – e ninguém poderia negar que o cadete Oliveira era a expressão humana do ideal preconizado. Segundo testemunho de contemporâneo seu[2], a Equitação, presidida pelo temido Ilharco, constituía a disciplina nuclear de todos os cursos. Aqueles que Ilharco – mestre equitador – aprovava para a arma de Cavalaria “nem livros precisavam de ter”. Os lentes do tempo entendiam que o entusiasmo é a melhor pedagogia. Domingos de Oliveira satisfez inteiramente.


 


A identificação com o “estilo da casa”, terá aguçado, entre lentes e colegas, o interesse pela sua pessoa, circunstância que lhe permitiu compensar a falta de “mundo” que a modesta casa paterna não lhe podia ter proporcionado. Assim, a ortodoxia no serviço e a excelência no desporto reforçaram-lhe a vontade e o carácter e valeram-lhe a amizade e respeito de todos, do mais bisonho ao mais refinadamente educado. Como apesar do seu entusiasmo desportivo, o meu Avô lia bastante (e até traduzia[3]), ele acabou por personificar as virtudes militares, desportivas e sociais que os jovens desejavam cultivar.


 


Entre estas virtudes destacava-se o fair-play. Sabia-se, por exemplo, que antes de iniciar uma corridas às lebres, * inspeccionava o terreno para ver se este oferecia abrigos convenientemente espaçados que permitissem à lebre abrigar-se, caso precisasse de despistar os galgos para refazer forças e, em último caso, para escapar de vez à sua fúria assassina. Se não estivesse seguro de que a lebre tinha sorte a seu favor, cancelava a corrida. A um velho amigo que um dia não resistiu à tentação de cortar o caminho da lebre e a deixou à mercê dos cães, o meu avô disse-lhe, aborrecido “isso não é desporto”[4]. No seu código, a atitude era mais importante do que o resultado.


 


(continua)


 


Luís Soares de Oliveira.jpg Luís Soares de Oliveira






[1] O pai, Domingos Alves, fundador da Fábrica dos Pastéis de Belém, tinha outros desígnios quanto ao casamento de sua filha Violante


 




[2]
            [2] Raul Brandão, Memórias, Vol I


 




[3]
            [3] Ajudou seu filho, meu pai, a traduzir as Memórias do general Foch.


 




[4]
         [4] Depoimento do advogado Bustorff Silva, no IN Memoriam.


 


(*) Baixo relevo em forma de medalhão existente na Sociedade Hípica Portuguesa representando um dos seus fundadores, o General Domingos de Oliveira


 



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