
Se, como pretende J. Gaspar Simões, “o estilo é maneira como cada um sofre a vida”, a análise da forma como lidava com as contrariedades seria talvez a maneira apropriada de identificarmos o seu estilo pessoal. O Avô era capaz de usar a energia, mas só o fazia em última análise. Preferia a mediação. Fundamentalmente, o seu estilo era consensual A sua proverbial paciência ajudava-o a minorar a resistência dos particularismos e egoísmos alheios e a estabelecer a concórdia. As implicações de natureza pessoal de cada caso mereciam-lhe sempre mais respeito do que a substância da questão em pauta. Os que lhe propunham qualquer nova linha de acção ouviam invariavelmente a pergunta: fica alguém prejudicado? Sempre que possível recorria ao humor. Tanto nas ocasiões mais solenes, como em casos de extrema delicadeza, o Avô conseguia, em regra, encontrar o comentário que, sem ferir suscetibilidades, quebrava o gelo, repunha as cousa nos seus lugares, reduzia as questão às suas exactas proporções, desmontava falsas premissas e punha a nu o despropósito de atitudes empoladas e apaixonadas.
O cerimonial laico era para ele motivo óbvio de contrariedade, mas lá ia conseguindo minorar a “estucha”. Quando tinha que assistir ex-ofício às pesadas sessões solenes da Academia de Ciências, presidida ao tempo por Júlio Dantas, aproveitava-as para repouso mental. Apresentava-se de óculos escuros, instalava-se no seu cadeirão e encarregava o tio Carlos, que desempenhava as funções de ajudante de campo e, como tal ficava postado atrás do cadeirão, de lhe dar uma cotovelada na altura dos aplausos. Uma vez, passava então férias na Curia, surgiu uma outra estucha: o dono do Hotel Palácio, encantado com as maravilhas do rádio, novidade do tempo, colocara no salão do hotel um aparelho potentíssimo com o qual atroava o espaço reservado ao sossego dos hóspedes. Todos sofriam com essa prática mas ninguém se queixava, talvez por receio de serem apontados como “botas de elástico”. O meu Avô resolveu o problema. Uma manhã, antes que os empregados ligassem a infernal máquina, munido de alicate, esgueirou-se entre o aparelho e a parede e, num ápice, cortou as ligações internas dos alto-falantes. Mais tarde, os empregados vieram consternadamente informar os hóspede que, devido a avaria, não podiam proporcionar-lhes, por alguns dias, a audição da radiodifusão nacional. O general DO foi o hóspede que mais lamentou o sucedido.
Este humor, que por vezes se aproximava da comicidade, mas nunca pecava por sarcasmo, reflete o admirável equilíbrio da personalidade de um homem que, tendo encarado com a máxima seriedade as muitas e pesadas responsabilidades que lhe foram confiadas, não caiu no erro de se levar a sério a si próprio. O mesmo equilíbrio que se manifesta na combinação de modéstia pessoal com a panache de cavaleiro, sem sobreposições nem atropelos recíprocos. Foi este equilíbrio que lhe permitiu atravessar incólume e incorrupto as sucessiva fases que a vida lhe proporcionou: aquela em que era estimado, a seguinte em que foi perseguido, depois quando o aclamaram e finalmente a fase da sua reforma que adiante descrevemos. Adaptou-se sem incómodo de maior a qualquer delas: não se iludiu quando a belle époque lhe sorria e tudo lhe corria de feição, (se bem que tenha chorado o fim desse período quando da implantação da República), não azedou nos tempos em que o regime seguinte o manteve quase exilado nos postos fronteiriços, nem se deslumbrou quando o chamaram e lhe pediram que ocupasse o cadeirão central do Poder. No seu entender, tratava-se de meras circunstâncias e não de transcendências. A paz com Deus, o amor da família, o dever profissional e cívico, o respeito e estima de camaradas, amigos, confrades e subordinados, o cuidado com os desprotegidos e, obviamente, a boa forma dos seus cavalos, constituíam a essência do seu campo existencial: o resto, incluindo cargos e postos, era conjuntural.
(continua)
Luís Soares de Oliveira