
A figura do general Domingos de Oliveira, meu Avô, impunha-se naturalmente: polarizava a vida da família que lhe votava intenso afecto; congregava os grupos de amigos, estabelecia o nexo nas rodas de cavaqueira que frequentava; era referência indispensável dos entusiastas da arte de bem cavalgar nas sua diferentes manifestações - adestramento, hipismo, exterior, montaria; corrida ás lebres, criação e apuramento de raças, etc. Era sabido que os jovens alferes quando se apresentavam no Regimento de Lanceiros de El-Rei pediam para servir no esquadrão do Capitão Oliveira1. Mesmo assim, é surpreendente que pessoa de tão diversa formação e oposto humor, como era o Prof. António de Oliveira Salazar, tenha manifestado, muitos anos depois, análoga disposição. A personalidade de meu Avô tinha pois atributos que ultrapassavam o quadro das virtudes militares e familiares. Procuraremos identificá-los.
A sua personalidade tinha por espinha dorsal um sentido deliberado de dever. Mas um tal fundamento existencial não justificaria, só por si, o magnetismo que exercia sobre os que o cercavam. Outros atributos contribuíam para lhe granjear a amizade e a confiança dos seus contemporâneos. O visual era-lhe favorável: perfil insinuante, porte distinto, gentileza de maneiras, trato cortês, sem afectação, característica do tipo “racé, produto de uma antiga civilização”2. A sua discrição evitava a ofensa e estimulava a confiança. A lealdade e a bondade reflectiam-se na candura azul do seu olhar. Nele, a distinção casava-se com a modéstia. O seu discurso era despido de enfeites e os seus actos vazios de presunção. Era o que era; nunca pretendeu ser o que não era, nem permitiu que o tomassem como tal. Político, por exemplo, não era, nem quis ser. A Pedro Correia Marques, jornalista de “A Voz” que o interrogou sobre a política do seu governo respondeu “estou aqui [na Presidência do Ministério] apenas na condição de militar; a política será feita sim, mas por quem tenha aptidões para tanto” e, para melhor entendimento, acrescentou: “comparo-me ao bombeiro que veio para apagar o fogo e não para se instalar na casa”. O jornalista deve ter pensado estar perante o ingénuo puro, mas com o tempo compreendeu quão avisado era o homem que não se deixava fascinar pelas tentações e exteriorizações do poder.
A modéstia proverbial não o impedia contudo de praticar os actos da vida militar com a autêntica panache do oficial de Cavalaria. Neste particular, ninguém o superava. Bastava vê-lo quando, a galope, passava revista às tropas em parada. Assumia então - e com muito gosto - o palco e era um regalo para os olhos. A sua figura elegante, bem colada à sela, caracolando um soberbo corcel em galope cadenciado, seguido em formação rigorosa pelos ajudantes de campo, escolhidos estes entre os melhores ginetes, percorria de ponta a ponta as fileiras da magna concentração de forças e levava a todos o exemplo contagiante do garbo militar. O objectivo, no caso, não era inspeccionar os seus homens mas, antes, mostrar aos homens o chefe que tinham e fazê-los sentir o orgulho de ser militar. A essência do acto era a comunicação e a mensagem atingia todos, galvanizando-os imediatamente.
Intuitivamente ele já detectara que “o meio é a mensagem”. A preocupação com a importância do “meio” levá-lo-ia a envergar uniforme militar durante os 884 dias do seu governo. Ninguém restava dúvida que não se tratava de um político. De resto, a sua comunicação fluía facilmente. O estilo que usava - o exemplo - poupava distorções e impedia múltiplas interpretações. Ao exemplo, adicionava a palavra e dela servia-se com o máximo rigor, de forma a fazer-se entendido. Se necessário recorria ao vernáculo. Dependia do destinatário. Não usava a palavra como meio de persuasão e muito menos como instrumento de decepção. Mas podia divertir-se com as palavras. Ninguém apreciava um trocadilho mais do que ele.
O domínio da arte de comunicar ajudou-o a manter-se fora das intrigas políticas que fervilhavam á sua volta durante os tempos incertos da primeira República. A sua resposta a alguém que tentou aliciá-lo para um movimento de cunho sedicioso, metafórica embora, é paradigmática: “Tenho as minhas convicções mas não quero entrar em combinações políticas. O meu partido é o Exército”.
A sua linguagem era simples porque o pensamento que alimentava a mensagem era claro. E o pensamento era claro porque decorria de uma sabedoria de séculos. As suas convicções eram as do homem de antes de Galileu. Pesava nele a vocação do bricoleur, com a inerente dignidade e autenticidade dos que, por não terem abandonado a prática de trabalhar com as próprias mãos, se mantém próximo das suas raízes. A sua mente só reconhecia conceitos muito experimentados, ideias cuja nobreza derivava da antiguidade e valores morais transmitidos de pais para filhos. Não acreditava que os sábios da metafísica, por muitas voltas que dessem ao pensamento, viessem a produzir algo mais sublime do que o expresso na fórmula “glória a Deus nas alturas e paz na terra aos homens de boa vontade”. Assim era o seu credo, assim era o seu desígnio.
(continua)
1[1]Testemunho do coronel Álvaro Neves da Fontoura, no In Memoriam
2[1] Observação feita pelo ministro da Alemanha numa recepção na Ajuda e citada pelo Prof. Cordeiro Ramos no In Memoriam
