Se a diáspora é o preço que temos a pagar pela sobrevivência do nosso Centro, isso resulta de cá dentro não termos a dimensão suficiente para alcançarmos a viabilização no âmbito deste segundo processo de globalização.
É que, quando fizemos a primeira globalização do mundo, fomos nós que lhe definimos os contornos, as condições; hoje não controlamos o modo como esta segunda globalização se processa. Da primeira fomos os donos; na segunda pertencemos ao grupo das vítimas.
Foi o Império que nos salvaguardou da cobiça vizinha e chagámos a 1974 com um modelo mercantilista que diluiu por completo o esforço material de guerra; foi em 1975 que por exaustão política entregámos o Império a quem mais o cobiçava e, de regresso aos limites europeus, encetámos um processo de distribuição de riqueza … sem cuidarmos de saber se a riqueza existia.
E que riqueza poderia existir? Despojados do materialismo imperial e herdeiros de uma situação aviltante no que respeita à valorização humana (estimando-se o analfabetismo adulto em 1910 nos 90% e contando em 1974 com uma taxa ainda de 25%), não se via que desse modo pudesse existir forte estrutura intelectual, profissional e produtiva para que alguma coisa sobrasse e pudesse ser distribuída. E quando tudo indicava que primeiro haveria que fazer crescer o bolo, logo as bandeiras acenaram para a distribuição do que não existia, para o desequilíbrio comercial com o exterior, para o endividamento externo. Se a isto somarmos o encerramento da fraca estrutura produtiva abalada pelas canções revolucionárias, eis que a Administração Pública surge como o local certo para conseguir uma colocação vitalícia. E se a doutrina então vigente se compatibilizava com a tutela pública sobre as mais recônditas partículas da vida nacional, eis que o funcionalismo público cresce desmesuradamente alcandorando-se a um dos principais pilares do desequilíbrio das Contas Públicas e da geração de importantes tensões inflacionistas.
Estrangulado o Ocidente das matérias prima africanas, foi o líder comunista português condecorado Herói Soviético mas havia ainda que cercear a liberal Europa da sua franja atlântica pelo que foi nesta "parte mais fraca" que rufaram os tambores do colectivismo e da solidariedade proletária. E se desta última perspectiva nos libertámos imediatamente sem ajuda externa, já na perspectiva do longo prazo nos foi apontada a Europa como a tábua de salvação de mais misérias e desgraças. Corriam os tempos em que o Ministro das Finanças passava diariamente pelo Banco central a saber qual a disponibilidade momentânea de divisas e perspectivando desse modo o seu dia de trabalho; desvalorização monetária como artifício para a salvaguarda da competitividade nacional, espiral inflacionista, "cabazes de compras" com preços controlados, descrédito no sistema, incredulidade na viabilidade nacional, recurso ao Fundo Monetário Internacional. E no meio de tudo isso a mulher do então Primeiro-ministro a telefonar indignada ao Ministro do Comércio queixando-se de que no Chiado não encontrara uma única gravata de seda para o marido … A ser verdade o que se conta, Maria Antonieta também terá sugerido ao povo que comesse croissants, já que não havia pão …
Assente a poeira nos caminhos, constata-se com amargura que "em casa onde não há pão, todos ralham e ninguém tem razão". E se tivéramos um modelo de desenvolvimento de lógica imperial e mercantilista, rapidamente constatámos que nada sabíamos por nós próprios fazer e que era chegado o momento de esmolar. E é precisamente isso que a Europa vem fazendo: dar-nos as esmolas que sublimamos com o faustoso apelido de Quadros Comunitários de Apoio.
Mas diz-se por aí que 2013 é o limite dessas esmolas. Ou seja, a partir dessa altura vamos ter mesmo que fazer alguma coisa de jeito.
E se Friedrich List (1789 – 1846) se suicidou em antevisão do insucesso internacional das suas ideias e, pelo contrário, Milton Friedman (1912 - 2006) tenha morrido já velho e em plena glória, isso não obsta a que o primeiro tivesse a razão dos pobres e o segundo a dos ricos.

Friedrich List - Avô da Economia Alemã
Eis que neste cenário da globalização friedmaniana se nos impõe afinal o regresso bem rápido à primazia dos bens transaccionáveis como "pão para a boca" em que – bem àquem da imagem parabólica – o mar se revela como sendo de novo o nosso destino.
Como há cinco séculos.
Lisboa, Junho de 2007
Henrique Salles da Fonseca