A bem da Nação

O LEMA

 


 


O texto de Vasco Pulido Valente impõe-se na coragem com que arrosta, não só contra os que, em tempos, de forma simplista e certamente que demagógica, na onda aparatosa e entusiástica que fez desabar um regime, impuseram uma Constituição em que os princípios da igualdade, que todos sabem serem falsos e utópicos, manipulam as leis sociais, mas também contra os juízes do TC, que ninguém conhece e que, sem quaisquer laivos de consciência chumbaram o OE, indiferentes às consequências perante a situação em que deixam governo e país.


 


Mas é de loucos furiosos que se trata, há trinta e nove anos, desde que, sem mais tir-te nem guar-te, se deu uma reviravolta de 180 graus neste país, que originou que os objectivos para a igualdade fizessem içar uns e apear outros, como é natural, é certo, em todas as reviravoltas movidas pela ambição, a mesquinhez e o abandono dos princípios, que distinguem os verdadeiros homens e os verdadeiros cidadãos. Creio que a magistratura foi das classes muito beneficiadas na altura, e continuou pelos anos fora, para não se deixar subornar, com as peitas, já usuais, todavia, nos tempos de Gil Vicente:


 


CORREGEDOR Sempre ego justitia


fecit, e bem por nivel.


DIABO E as peitas dos judeus


que a vossa mulher levava?


CORREGEDOR Isso eu não o tomava


eram lá percalços seus.


Nom som pecatus meus,


peccavit uxore mea.


……….


DIABO Ora entrai, nos negros fados!


Ireis ao lago dos cães


e vereis os escrivães


como estão tão prosperados.


CORREGEDOR E na terra dos danados


estão os Evangelistas?


DIABO Os mestres das burlas vistas


lá estão bem fraguados.


Estando o Corregedor nesta prática com o Arrais infernal chegou um Procurador, carregado de livros, e diz o Corregedor ao Procurador:


CORREGEDOR Ó senhor Procurador!


PROCURADOR Bejo−vo−las mãos, Juiz!


Que diz esse arrais? Que diz?


DIABO Que serês bom remador.


Entrai, bacharel doutor,


e ireis dando na bomba.


PROCURADOR E este barqueiro zomba...


Jogatais de zombador?


Essa gente que aí está


pera onde a levais?


DIABO Pera as penas infernais.


PROCURADOR Dix! Nom vou eu pera lá!


Outro navio está cá,


muito milhor assombrado.


DIABO Ora estás bem aviado!


Entra, muitieramá!


CORREGEDOR Confessastes−vos, doutor


PROCURADOR Bacharel som. Dou−me à Demo!


Não cuidei que era extremo,


nem de morte minha dor.


E vós, senhor Corregedor?


CORREGEDOR Eu mui bem me confessei,


mas tudo quanto roubei


encobri ao confessor...


Porque, se o nom tornais,


não vos querem absolver,


e é mui mau de volver


depois que o apanhais.


DIABO Pois porque nom embarcais?


PROCURADOR Quia speramus in Deo.


DIABO Imbarquemini in barco meo...


Pera que esperatis mais?


Vão−se ambos ao batel da Glória, e, chegando, diz o Corregedor ao Anjo:


CORREGEDOR Ó arrais dos gloriosos,


passai−nos neste batel!


ANJO Oh! pragas pera papel,


pera as almas odiosos!


Como vindes preciosos,


sendo filhos da ciência!


CORREGEDOR Oh! habeatis clemência


e passai−nos como vossos!


……..


CORREGEDOR Oh! não nos sejais contrairos,


pois nom temos outra ponte!


ANJO A justiça divinal


vos manda vir carregados


porque vades embarcados


nesse batel infernal.


CORREGEDOR Oh! nom praza a São Marçal!


coa ribeira, nem co rio!


Cuidam lá que é desvario


haver cá tamanho mal!


PROCURADOR Que ribeira é esta tal!


CORREGEDOR Venha a negra prancha cá!


Vamos ver este segredo.


PROCURADOR Diz um texto do Degredo...


DIABO Entrai, que cá se dirá!


(«Auto da Barca do Inferno»)


 


 


Mas hoje os corregedores não receiam mais as penas do inferno, nem há já barca que resista ao peso de tanto descrédito da magistratura. Gil Vicente está, definitivamente, arrumado. Tal como o país que foi sua pátria, caso o governo em funções não consiga ultrapassar as zagunchadas dos seus detractores , ou encontrar as soluções para o naufrágio em que o fizeram mergulhar os “corregedores” do T.C, cuja ciência, não testada pelo país, Vasco Pulido Valente põe em causa, esquecido do lema antigo tripartido, que os nossos sábios, de companhia com os ignorantes seus iguais, não esqueceram, como ponto de partida dos seus estudos trimestrais: Igualdade, Liberdade, Fraternidade.


 


 Berta Brás

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