A bem da Nação

O FILHO DAS SALSAS ERVAS

 


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Até ele nascer, o pai teve catorze filhos sendo quatro do casamento e dez fora do dito.


 


Este rapaz que vos estou a referir, foi o único daquela mãe e esta não passava de uma das empregadas do pai, comerciante e fazendeiro numa terriola perdida num vale andino, no Peru. Para ela, o filho era um empecilho que não lhe permitia alternar o trabalho com os folguedos. Por isso, logo que conseguiu amealhar uns dinheiritos, comprou um bilhete de ida e volta na camioneta que os levaria a umas centenas de quilómetros, a uma terriola na costa peruana onde tinha parentes que por certo não se importariam de criar o petiz. Levou-o, deixou-o e regressou à origem antes que os tais parentes se arrependessem.


 


Os parentes, espantados, não tiveram tempo para manifestar qualquer arrependimento antes de a rapariga desaparecer pelo que a criança ficou em casa deles. Mas as atenções dispensadas foram apenas as necessárias para que não morresse de fome ou de frio. Deambulou uns tempos pela praia mas não chegou a fazer amizades pois as crianças da sua idade estavam no afago das respectivas famílias, o que ele não tinha. Foi o Padre local que lhe ensinou as primeiras letras mas ninguém controlava as idas às aulas e a instrução primária ficou-se pela precaridade.


 


Até que aqueles parentes se fartaram do rapazito e o mandaram para casa de outros parentes que viviam em Lima, a capital, a mais não sei quantas centenas de quilómetros e cada vez mais longe do local de origem em que a mãe continuaria. Aliás, nunca mais na vida voltou a ver a mãe.


 


Depois de longuíssima viagem, chegou a Lima e conseguiu descobrir a casa dos novos parentes que ele nunca vira. Tudo bem, deram-lhe um quarto para dormir, mandaram-no à escola para completar o ensino elementar mas exigiram-lhe em contrapartida que fizesse trabalhos domésticos. E foi como serviçal que estudou até meio do ensino secundário.


 


Aluno mediano, lá se viu novamente em bolandas para uma cidade no interior do país onde alguém descobriu o pai dele e respectiva família que, entretanto, já era outra relativamente à da época em que ele nascera. E da mãe, nem rastos… esfumara-se.


 


Muito severo, o pai não lhe ligava patavina (nem aos outros irmãos), apenas se preocupava com os negócios e se dedicava a fazer mais filhos um pouco por toda a parte. Mas a madrasta, ao contrário das histórias para crianças, prestou-lhe atenção e, pela primeira (e talvez única) vez ele sentiu que alguém se interessava por ele. A única obrigação que lhe foi imposta foi a de estudar. O quê? O que ele quisesse desde que fosse na Universidade. Mas ele queria ir para a Escola do Exército. Não, isso é que não! Para a Universidade e não havia discussão. E ele foi…


 


Licenciou-se em Direito, escolheu a carreira docente e chegou a Catedrático. Como assim, tão rapidamente?


 


É que lá pelo final do ensino secundário alguém lhe havia falado de um tal Marx, de um Fulano chamado Engels e de um russo a quem chamavam Lenine por cujos livros (de distribuição clandestina) o jovem estudante se interessara. Mais: livros que devorou e passou a citar de cor.


 


Então, assumindo-se comunista, caiu nas graças do Reitor da Universidade que o recrutou para a carreira docente logo que o jovem concluiu a licenciatura, o foi encarregando de missões políticas dentro e fora do curriculum académico e o promoveu sucessivamente até que – sem grandes discussões científicas – se viu alcandorado a uma cátedra.


 


À boa maneira dos comunistas, o nosso homem não ria nem sequer sorria, não tinha amigos e apenas se relacionava com camaradas – eles e elas. E foi com uma dessas elas que ele casou. Ele com 31 anos de idade; ela com 17.


 


Subidos na hierarquia do Partido Comunista Peruano, puseram em prática a cartilha da organização partidária e de doutrinação das hostes.


 


Só que, a certa altura do «campeonato», chegaram-lhes às mãos os livrinhos vermelhos do Presidente Mao e, vai daí, os nossos «artistas» dão-se de amores por esse chinês e decidem formar um novo Partido Comunista mas de prática maoista e não mais «revisionista» como eles passariam a chamar aos de observância moscovita. Este, sim, o verdadeiro caminho das luzes – em espanhol, o Sendero Luminoso.


 


Frustrado com o facto de não lhe ter sido possível seguir a carreira militar, o nosso homem decidiu militarizar o seu novo Partido, o maoista, mas quem se encarregou da missão foi ela, a mulher.


 


Seguiu-se o lançamento de acções de terror por todo o país, clandestinidade, guerra de guerrilha, milhares de mortos… uma verdadeira desgraça nacional. Foram 18 anos de pesadelo até que uma sociedade destroçada conseguiu reunir algum ânimo, dar guerra aos assassinos lunáticos, derrotá-los e prendê-los.


 


Ela, a grande guerrilheira «Norah», Augusta La Torre de seu nome oficial, já tinha desaparecido da circulação numa morte misteriosa e sem prova de corpo. Quanto a ele, preso, julgado e condenado a duas prisões perpétuas, já passou os 80 anos de idade e cumpre pena no mesmo estabelecimento prisional que os seus arqui-inimigos, ex-Presidentes corruptos do Peru, Alberto Fujimori e Alejandro Toledo, ambos condenados a 25 anos de cadeia pela cleptomania que praticaram no exercício do cargo presidencial.


 


O «artista» que acompanhamos desde a infância fora baptizado como Ruben Manuel Abimael Guzman Reinoso, toda a vida usou apenas Abimael Guzman, passou por ser o «camarada Álvaro» e acabou a clandestinidade como «Presidente Gonzalo». Então, fruto que é do abandono familiar e do desprezo social, fez do Peru um antro de terror horrível para todos os seus concidadãos e por isso eu prefiro chamar-lhe «o filho das salsas ervas» para não lhe chamar aquilo que o leitor está a imaginar…


 


Dezembro de 2017


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Henrique Salles da Fonseca


 


BIBLIOGRAFIA:


ABIMAEL – EL SENDERO DEL TERROR, Umberto Jara, ed. Planeta, Lima – Peru, 1ª edição - Agosto de 2017

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