A bem da Nação

O ESCRAVO AFRICANO NO BRASIL

 


 


País com a economia indexada ao modelo de produção baseada na exploração do trabalho escravo, o Brasil viu com a lei da proibição do tráfico transatlântico de escravos (Lei Eusébio Queiroz, 1850) o preço do africano disparar. Na década de 1870 um escravo valia 1,5 a 2 contos de réis, enquanto uma casa na capital era comprada por 1 conto e seiscentos e uma fazenda em Santa Barbara, com 400 alqueires, casa de moradia, olaria, monjolo, engenho, paiol, senzalas, casas de agregados, pastos formados, valia 23 contos (Diário de São Paulo, 03 de Agosto de 1875). Com a dificuldade em obtê-los, houve uma grande valorização dos negros. Era preciso cuidar do investimento. Os açoites e maus-tratos foram trocados pela palmatória, principalmente para “castigar” crianças e mulheres. Dizia-se que os senhores do Rio de Janeiro eram bem mais benevolentes que os do Maranhão.


 


Nas cidades trabalhavam como carregadores de cadeirinhas, pintores, pedreiros, carpinteiros, vendedores, limpadores de latrinas, artistas, leitores,... Faziam todos os ofícios, ganhavam dinheiro para seus senhores que, não raramente, nem sabiam ler.


 


O casamento religioso entre os escravos não era estimulado, muito pelo contrário, a situação irregular, tolerada pelos senhores, facilitava a desordem familiar e as separações. Só em 1885 a Constituição do bispo da Bahia regulamentou os casamentos dos escravos com gente livre ou cativos, impedindo legalmente as dissoluções familiares. Mesmo assim a africana continuava a ter filhos com diferentes tons de pele, frutos de relacionamentos com brancos, pardos e negros. As ligações extraconjugais, os filhos naturais, os ciúmes e a situação de escravidão, tudo persistia. As negras, em geral, orgulhavam-se dos filhos mestiços que, “mimados”, eram aproveitados em serviços mais leves, mas essa situação as fazia desprezadas pelos irmãos da senzala.


 


Na área rural os senhores tinham grande poder sobre seus escravos, mas diferentemente da lei romana, a lei brasileira negava-lhes o direito de vida e morte sobre seus cativos. Porém a distância e o isolamento das fazendas favorecia as arbitrariedades, os castigos cruéis e até a morte do escravo. Os negros que ficavam na sede tinham privilégios que os demais, que trabalhavam nos campos e minas, invejavam. Executavam trabalhos domésticos, menos pesados, insalubres e arriscados, mobilizavam-se com mais liberdade pela propriedade, desfrutavam de melhor alimentação e acomodação, tinham mais contacto com o “Senhor” e família, e até vestiam-se melhor, principalmente quando faziam a função de pajem ou de copeiros. Diziam que D. Beija, a famosa fazendeira e cortesã de Araxá, trajava suas mucamas com luxo para assim ostentar seu poder e riqueza. Quando saía à rua ou ia à missa desfilava sempre com a sua corte negra orgulhosa e bem vestida.


 


As mucamas cuidavam e amamentavam as crianças brancas. Às vezes dormiam no mesmo quarto das sinhazinhas, em geral, suas únicas confidentes e conselheiras. As negras cozinhavam, lavavam, passavam a ferro (a brasas) os ternos de linho do “sinhozinho” e os vestidos rendados das suas donas. Os escravos da casa viviam num mundo distante dos irmãos da senzala. Não raras vezes, fiéis, eram estimados pela família e alguns ganhavam até a liberdade depois de anos de trabalho. A maioria velha ou sem outra opção ficava como agregada. Assim conseguia sobreviver. Mas havia também aqueles que se aproveitavam da proximidade com os seus Senhores para porem em prática vinganças e traições. Mortes por envenenamento, tocaias, assassinatos sem explicação por vezes aconteciam... As fugas eram frequentes. Nas cidades maiores eram colocados anúncios nos jornais com nome e descrição da “peça” e até recompensa.


 


No interior, principalmente em Minas Gerais, os capitães-do-mato (em geral mestiços), as tropas legais e particulares, caçavam os fugidos e destruíam a custo os quilombos, verdadeiras cidadelas negras que persistiram por muitos anos, aterrorizando caminhos e vilas, dificultando, como os índios, a ocupação efectiva do espaço interiorano brasileiro. Nos casos em que o escravo era recapturado, além de ser marcado com ferro em brasa na nádega (F de fugido) era também castigado no tronco com açoites de chicote rabo de tatu. Para impedir nova fuga, recebia peias nos pés e gargalheiras no pescoço. Para que não comesse terra, colocavam-lhe mascaras que tampavam a boca.


 


Além dos filhos com a esposa branca, o relacionamento do Senhor com as escravas gerava filhos mulatos, tornava o país cada vez mais mestiço. Orgulho das mães negras, esses filhos eram mais mimados, mas eram escravos para o pai-patrão e para os próprios irmãos.


 


Casos, porém, existiam em que eram reconhecidos legalmente e até recebiam educação no estrangeiro, porém isso não era a regra. É interessante ver que quando os cativos ganhavam a liberdade e conseguiam boa situação financeira, adquiriam os mesmos costumes dos brancos. Se foi verdade que ajudavam seus irmãos de raça comprando e lutando pela alforria, também foi sabido que havia aqueles que os adquiriam como escravos.


 


Finalmente em 13 de Maio de 1888, depois de muitas campanhas abolicionistas, lutas, e interferências políticas, a Lei Áurea foi assinada pela Princesa Isabel, acabando oficialmente com a escravidão no Brasil.


 


Agora só nos falta, brancos, mestiços e negros ganhar a verdadeira independência, que se conseguirá quando formos, nós brasileiros, um povo educado, consciente dos nossos deveres, responsabilidades e direitos. Quando conquistarmos a verdadeira cidadania, aprendida com os erros do passado.


 


 Luis Gama, mulato que foi escravo e que estudou em Coimbra, ironizava o comportamento dos mestiços com a seguinte poesia:


 


Se os nobres desta empanturrados


Em Guiné têm parentes enterrados


E cedendo à prosápia ou duros vícios


Esquecem os negrinhos seus patrícios


 


Se mulatos de cor esbranquiçada


Já se julgam de origem refinada


E curvos, à mania que os domina


Desprezam a vovó que é preta mina


Não te espantes, ó Leitor, da novidade


Pois que tudo no Brasil é raridade!


 


Uberaba, 08/04/14


 


 Maria Eduarda Fagundes


 


FONTE DOS DADOS:


 


Da Senzala à Colónia. Corpo e alma do Brasil (Emilia Viotti da Costa). Direcção do Prof. Fernando Henrique Cardoso – Difusão Europeia do Livro

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