Num passado não muito distante, o pacato quotidiano das corruptelas e pequenas cidades interioranas era movimentado pelas festas religiosas e histórias fantásticas contadas à noite em animadas reuniões familiares.
Depois do jantar, nas varandas das casas ou sentados em volta de uma fogueira no terreiro das roças, os peões e agregados das fazendas contavam as novidades do dia, piadas, e estórias sobre fenómenos sobrenaturais que arrepiavam os cabelos e punham visões assombradas na imaginação dos mais ingénuos. A morte, sempre temida, quando chegava a algum morador da casa, era fantasiada pela omnipresença de fantasmas que povoavam o imaginário das crianças e dos mais susceptíveis que à noite, de medo, não dormiam.
As lendas eram contadas de boca em boca e de geração em geração, com acréscimos e adendas. Os personagens ganhavam nomes e até referências que davam às estórias ares verídicos onde se misturava o fictício e o real.
Povo extremamente religioso e supersticioso, quando alguém morria nas fazendas, tinha o costume de buscar o defunto para ser enterrado no cemitério da cidade.
Famosa ficou a seguinte estória...
Naquela tarde, Zé da Rosa, o motorista da Lajeado e o ajudante, funcionário da funerária, seguiam pela estrada rural, apressados. A caminhonete levantava poeira. Queriam chegar à fazenda para pegar o defunto antes que a tempestade anunciada os alcançasse.
Foi quando de repente, acenando no meio da estrada, um rapaz pedia carona. Solícitos, pararam. Deixaram-no saltar para a carroçaria, depois de lhe explicar que havia atrás um caixão vazio. Iam buscar um defunto na roça. Tocaram em frente sem perda de tempo. Não demorou muito e grossos pingos de chuva começaram a cair. Sem pestanejar, o homem entrou no caixão e fechou a tampa para não se molhar. Não haviam percorrido dois quilómetros e eis que surge outro campesino no caminho, todo encharcado, pedindo boleia. Na chuvarada, não houve tempo para explicações. Zé parou o carro e o carona subiu ligeiro, onde jazia o caixão ocupado.

Quando a chuva amainou, ouviu-se um grito de pavor. Assustado, o motorista brecou e apalermado viu o matuto pular e caído na estrada, tentando, tonto, abalar, enquanto na carroçaria o outro carona, sentado, com a tampa do caixão levantada, com cara de espanto, sem entender nada, dizer: - Não sei por que ele fez isso, eu só perguntei se a chuva havia passado!
Uberaba, 17/04/13
