Democracia! Uma palavra poderosa significativa de governo do povo. Em nome dele se reformularam leis, se refizeram serviços – de Saúde, de Educação, de bem-estar material. E o povo adquiriu direitos – à Saúde, à Educação, ao bem-estar material. Criou hábitos de classe distinta e até rica, que não quer perder. Eis a tese de João César das Neves em “OS DONOS DE PORTUGAL”.
Mas esse povo esqueceu-se de que os que lhe forneceram os hábitos - aqueles que ele elegeu - o fizeram num processo não de apoio e incentivo ao trabalho e à produção interna, mas num de endividamento exterior, surgido em hora propícia, mercê duma união europeia camarada, pouco depois de as forças definidoras de Abril nos terem lançado para o charco da má governação económica, entregue a leigos, aliciadores de eleitores.
É agora necessário reduzir farturas, para pagar a dívida exterior. Como tem a faca e o queijo na mão para eleger ou não, o povo – a classe média, antes favorecida – não aceita as reduções, mesmo sabendo que não há volta a dar-lhe. É certo que Costa e Seguro dizem que sim, que há volta. Serão (um deles será) os próximos eleitos do rotativismo governativo, e para isso prometem coisas.
Poderá ser que haja alternativas. É como nos exercícios de cruzinhas: uns itens dão para o sim ou o verdadeiro, outros para o não ou o falso. Habituados à papa do discurso já burilado, os alunos vão amadurecendo lentamente, na preguiça do cálculo, que dantes recorria mais à memória em contas descomunais, e as tabuadas na ponta da língua, e agora à inteligência, sobre hipóteses trabalhadas por outros. A inteligência talvez se tenha desenvolvido mais, com as cruzinhas da papa feita, tal como a do povo, industriado no slogan, mas emperrado no cálculo avançado. Daí, uma dívida absurda, por decréscimo de cálculo, do exercício da memória por intermédio da tabuada, preferindo o slogan ditado por outros, que por sua vez o colheram de outros que fizeram as revoluções lá fora – ignorados os que obtiveram o dinheiro com o seu esforço, para nos emprestarem. Mas estes não contam, só contam os dos slogans de esforço mínimo.
