A bem da Nação

O CENTRO DO MUNDO – 2

 


 


Apesar do Humanismo e do Iluminismo, e até da Loucura, terem procurado colocar o Homem como o Centro do Mundo, alguma coisa saiu errada.


 


Buda disse que “a vitória gera ódio, pois o vencido é infeliz” e “nunca no mundo ódio acaba através de ódio. Ódio acaba através do amor”.


 


sto faz lembrar as loucuras de Hitler, as vinganças de Stalin, a estupidez de Bush, e outros “simpáticos” odientos.


 


Mais tarde Kung-Fu-tsé indicou algumas normas de vida, como “o que não queres que te façam, não faças a nenhum outro”. Jesus de Nazaré transformou esta norma em ação: “Faz aos outros o que gostarias que te fizessem”.


 


Chegamos ao “Bill of Rights” da Virgínia, base da tão aplaudida Constituição Americana: “Todos os homens são, por natureza, igualmente livres e independentes” e termina com esta sentença maravilhosa: “Cada um tem a obrigação de praticar o perdão, o amor e a caridade, um para com o outro”. Mas mantiveram a escravatura, a segregação, o ódio racial, a agressão gratuita, até hoje. E onde ficou a “Liberté, Fraternité, Egalité?”


 


Insistindo no valor do Homem vem a seguir a Declaração dos Direitos do Homem e repete que “os homens nascem livres e de direitos iguais e assim se conservarão”, que a Declaração Geral, da ONU volta a repetir. Mas onde está essa igualdade tão proclamada e teoricamente (só teoricamente) defendida desde a Magna Carta?


 


Que evolução teve o homem, para primeiro, ter necessidade de afirmar e reafirmar que todos são iguais, que nascem iguais, etc., e depois assistir todos os dias, desde sempre à grande maioria olhar para o outro simplesmente como um degrau para subir? Pisar na cabeça do outro, esmagar o outro, espoliar o outro, tirar-lhe tudo quanto for possível, para “meu” enriquecimento individual!


 


Promover guerras para vender armas, estrangular o mais fraco para lhe extorquir os últimos centavos, será este o Homem que todos os pensadores e legisladores tinham em mente?


 


De 24 a 26 do corrente haverá em Genève o 4° Congresso Mundial sobre a Abolição da Pena de Morte! Que hipocrisia leva estes pseudo congressistas a discutir um tema quando os mais fortes fazem o que querem, matam, dizimam sem qualquer julgamento, sem possivelmente consciência de culpa, além de criminosos, os opositores e milhares de civis e jovens militares que são obrigados a cumprir o seu dever “pela pátria”!


 


Vai adiantar alguma coisa condenar a China ou o Irão porque ainda têm pena de morte? E os Estados dos EUA que continuam com ela, de forma absolutamente aviltante que é condenar um indivíduo e depois fazê-lo esperar, por vezes mais de dez anos para ser executado?


 


Estes e outros congressos nada mais são do que um altíssimo negócio, e é aqui, também, que o Centro do Mundo aparece em toda a sua plenitude e verdade: o dinheiro. Congresso é negócio.


 


O dinheiro, a ganância, a ferocidade nas operações de bolsa e comerciais, a violência da China em querer dominar o mundo – e pouco falta – têm em mente o valor do Homem? Não. Tem unicamente como objectivo o brutal enriquecimento de alguns, a manutenção do poder de outros, a palavra de vida e de morte sobre mais outros, como essa Pena de Morte ou a declaração de guerras.


 


Não. O Centro do Mundo, por muito que façam declarações universais ou parciais, que se façam congressos, se insista com a ONU, o Centro do Mundo não é o Homem. É a ganância, o dinheiro, o poder.


 


A única igreja que, finalmente, parece dirigir-se para os pobres é a de Roma, mas está a custar-lhe adaptar-se aos tempos actuais, e vai perdendo vocações, fiéis e seguidores.


 


Em certa altura da minha resolvi arranjar uma propriedade agrícola, na montanha, onde pus umas dezenas de ovelhas. Tinha uma cadela, guarda, maravilhosa, que me seguia por todo o lado e se atirava a tudo que percebesse que eu não gostava.


 


Um dia o rebanho de cabras invadiu uma pequena plantação de feijão, que despontava cheio de esperança, e comeu aquilo quase tudo. Quando eu as vi a devorar o “meu” feijão zanguei-me, gritei para correr com as ovelhas e a cadela, “Uanga”, foi-lhes em cima e mordeu a perna de uma delas. Chamei-a logo, porque afinal ela era a guarda do rebanho, e fui ver a perna da ovelha mordida. Não tinha nada, nem sequer arranhou. Mas a ovelha começou a definhar e ao fim de uma semana, aparentemente sem nada, morria.


 


Aquilo fez-me muita confusão, e ouvi de velhos agricultores que as ovelhas eram, psicologicamente, muito sensíveis; quando agredidas ou mal tratadas morriam “de tristeza”! Sempre fiquei com isso na cabeça, até que um dia se fez luz; e está nos Evangelhos!


 


As ovelhas são os animais mais dóceis que existem. Os mais humildes.


 


Jesus expulsou os vendilhões, os comerciantes, e os fariseus, os pseudo-sábios. Disse-nos para olharmos os lírios dos campos e os passarinhos, que o Pai os vestia. Mandou que apascentássemos as “suas ovelhas”, o povo simples. Ele mesmo se intitulou o “Cordeiro de Deus”, o último, o mais humilde, e por isso mesmo o Primeiro.


 


Meditando nisto chega-se ao Génesis quando Deus ao criar o mundo proibiu o Adão de comer o fruto da árvore da sabedoria, porque sabia que esta poderia envenenar a felicidade, e por desobediência, ganancioso, foi expulso do Paraíso.


 


Afinal o que tudo isto nos quer dizer: “Sede simples”. Bem aventurados os simples... os que não almejam a impor-se aos outros, os que vivem em comunhão com a natureza, os que respeitam e amam o Outro, qualquer que ele seja, que defendem os fracos e para quem o dinheiro, infelizmente um bem hoje indispensável, não ultrapasse o suficiente para se viver.


 


Se isto assim pudesse ser, voltaríamos com o Homem para o Centro do Mundo.


 


Assim como está, não.


 


Rio de Janeiro, 23 de Fevereiro de 2010


 


 Francisco Gomes de Amorim

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