A bem da Nação

O bafo de Pégasus

 



 


 


A equitação académica encontra a sua expressão num percurso histórico interessante.


O homem das cavernas incluía na sua dieta o antepassado do cavalo moderno; na idade média o equino servia os propósitos bélicos dos nobres, nas inúmeras guerras que sobretudo avassalaram a Europa; os séculos XV e XVI e os que se seguiram representaram épocas de refinamento da arte de cavalgar em guerra, no contexto do advento da arma de fogo. O cavalo foi fundamental nos sucessos militares e uma consequência natural foi o aparecimento de academias equestres um pouco por toda a Europa. A Áustria por vontade dos Habsburgos instituiu a Escola Espanhola De Viena, em França o Cadre Noir instalou-se em Saumur e em Portugal a Academia Equestre existiu até 1807, altura em que foi encerrada devido às invasões napoleónicas.



 O Museu dos Coches era o Picadeiro Real e o turismo agradeceria que voltasse a sê-lo



A Academia Equestre de Portugal achava-se instalada no edifício que hoje corresponde ao museu dos coches. A tradição equestre portuguesa representa um Ex-libris cultural sem paralelo em todo o mundo. Com o decorrer dos tempos, a academia portuguesa foi relegada para segundo plano e mais recentemente, devido ás vicissitudes politico-culturais impostas pela ignorância dos governantes que não entenderam a importância desta forma de expressão cultural. Presentemente, a designada Escola Portuguesa de Arte Equestre, que comemorou 25 anos de existência, numa gloriosa gala realizada no Pavilhão Atlântico, tem a sua sede no Palácio de Queluz. Para ser mais preciso, numa dependência do palácio. Os cavalos são treinados ao ar livre e as condições gerais de funcionamento da escola são indignas quando comparadas com as infraestruturas que assistem a Escola Espanhola de Viena. Uma dezena e meia de cavaleiros mantém vivo um estilo de equitação que apenas se transmite de mestre para aprendiz num processo lento de depuração cultural. O sonho continua a ser, regressar ao Picadeiro Real de Belém, a casa original da academia equestre, aonde regularmente seriam apresentados ao público espectáculos de rara beleza, mas a batalha tem sido longa correndo-se o risco de passar de cavalo para burro.



  A Escola Portuguesa de Arte Equestre devia poder exibir-se no actual Museu dos Coches



Os argumentos que contradizem o sonho são multíplos mas injustificáveis. Forças políticas opõem-se ao projecto. Há quem tenha afirmado que o cheiro dos cavalos, uma vez instalados em Belém, chegaria à sala de visitas ou à cozinha do palácio presidencial ou que o bafo dos cavalos iria concerteza deteriorar as pinturas que se encontram nas paredes e tectos do picadeiro; há quem diga ainda que os coches merecem a sala de estar que presentemente ocupam. Pergunto-eu e talvez com razão: será que o bafo de Pegasus é assim tão forte? Ou seremos indignos porque não reconhecemos a nossa cultura e a nossa história?


 


Camões também montava a cavalo. 


 


John Wolf

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