Esclarecedor, o texto anterior de António da Cunha Duarte Justo sobre o dilema da bipolaridade na governação de Portugal.
Eça descrevia-o, em parte, situando-o nas classes literatas:
- Preocupação peninsular, filho, disse Afonso, sentando-se ao pé da mesa, com o seu chapéu desabado na mão. Desembaraça-te dela. É o que eu dizia noutro dia ao Craft, e ele concordava... O português nunca pode ser homem de ideias, por causa da paixão da forma. A sua mania é fazer belas frases, ver-lhes o brilho, sentir-lhes a música. Se for necessário falsear a ideia, deixá-la incompleta, exagerá-la, para a frase ganhar em beleza, o desgraçado não hesita... Vá-se pela água abaixo o pensamento, mas salve-se a bela frase.
- Questão de temperamento, disse Carlos. Há seres inferiores, para quem a sonoridade de um adjectivo é mais importante que a exactidão de um sistema... Eu sou desses monstros.
- Diabo! Então és um retórico...
- Quem o não é? E resta saber por fim se o estilo não é uma disciplina do pensamento. Em verso, o avô sabe, é muitas vezes a necessidade de uma rima que produz a originalidade de uma imagem... E quantas vezes o esforço para completar bem a cadência de uma frase, não poderá trazer desenvolvimentos novos e inesperados de uma ideia... Viva a bela frase! (Eça de Queirós, Os Maias, cap. IX).
Os tempos mudaram, outros motivos surgem. Ficando-nos pela amálgama das classes, julgo que o mal está na nossa idiossincrasia: avidez de posse, desinteresse em progredir, desresponsabilização, muito de choradinho, de invejazinha, de chulice, de tolice… « E do «sol que peca só quando em vez de criar, seca».
