1 – E Abril de 61 marcou a primeira e última tentativa muito séria de encerrar o longo consulado de António de Oliveira Salazar. E aquela em que não seria fácil sair de tão complicada situação. Porque não era comandada por elementos exteriores à liderança do Estado Novo. Era chefiada por elementos afectos ao mesmo, e mais grave ainda dirigida pela direcção política e militar das FA’s, que integravam um governo de AOS e devidamente escudados no CEMGFA. AOS reage, e tal como nos tempos conturbados da Guerra Civil de Espanha (como tudo está perigosamente esquecido) e II Guerra Mundial, chama a si e acumula com a Presidência do Conselho de Ministros a Defesa Nacional. Justifica: “para Angola rapidamente e em força”. E rapidamente e em força nomeia CEMGFA o general Gomes de Araújo, para ministro do Ultramar o Doutor Adriano Moreira, e logo depois, para Governador-Geral de Angola o general Venâncio Deslandes que à data era Embaixador em Madrid, e para Moçambique o almirante Sarmento Rodrigues que já tinha sido Ministro do Ultramar. Tudo pesos pesados. E agora Salazar não teme enfrentar, se necessário, todos eles, se acaso o seu mando possa ser posto em causa. Não haverá novos episódios de desafio grave à sua autoridade. E, em 62, vai demonstrar isso mesmo. No “desaguisado” entre Adriano Moreira e Venâncio Deslandes. Em que um perde o Ministério do Ultramar e o outro o Governo-Geral de Angola. É ele que manda mesmo. Com mais alguém segundo George Ball.
2 – Mas o ano de 61 não vai ser fácil para o Chefe do Governo. As crises vão-se acumulando. E que resultam, da maneira enérgica, como actuou em Angola. Porque o território angolano ao contrário do que muitos vaticinavam, vai conhecer em prazo muito curto, o restabelecimento em todo o território da autoridade política e militar. Os guerrilheiros da UPA e do MPLA estavam agora na defensiva, e se queriam sobreviver à acção das Forças Militares Portuguesas teriam de regressar à segurança das suas bases na República do Congo-Kinshasa e República do Congo (Brazzaville), ou refugiarem-se nas densas matas angolanas. O Exército Português tomava agora a iniciativa e repunha de forma controlada a autoridade posta em causa. Mas, os adversários de Portugal não nos dariam tréguas. Se não podemos vencer em Angola vamos causar “mossa” noutro lado. Na ONU e no terreno.
E, a 1 de Agosto de 1961, o pequeno território apenas constituído pela Fortaleza de S. João Baptista de Ajudá na República do Daomé (Benim) é ocupado pelas forças daquele País. Território pequeníssimo, habitado por um administrador e mais alguns portugueses, que não punha nada nem ninguém em causa. Mas que os adversários de Portugal sabiam que tinha tanto valor como qualquer grande território que tivesse a Bandeira Nacional. E sabiam a “dor” que provocavam no “timoneiro”. Dadrá e Nagar-Aveli tinham agora lugar no Atlântico Africano Português. E era o sinal de que a pressão sobre Portugal iria aumentar. E aumentou.
3 – Com a perda do Estado da Índia Portuguesa, em Dezembro de 1961. Aqui, considero, que foi o maior desgosto que António de Oliveira Salazar sofreu em toda a sua vida, tanto a nível pessoal, como ao serviço do Estado Português. Salazar nunca acreditou que Pandita Nehru que tinha uma “aura” de pacifista fosse capaz de mandar invadir os territórios de Goa, Damão e Diu. E que manchasse a sua carreira política. Que manchou a nível internacional. Com os seus adversários da China e do Paquistão a esfregarem as mãos de contentes. Nehru não podia nunca mais ir “chorar” para a ONU a sua desdita em relação a estes dois grandes países asiáticos. E disso se apercebeu logo. Mas temos de lhe fazer justiça.
Nehru tinha cedido à enorme pressão do seu ministro da Defesa Krishna Menom que advogou desde sempre a invasão sem mais do Estado da Índia Portuguesa, até para anular as dificuldades que o Partido do Congresso estava naquele momento a ter a nível interno. E Krishna Menom argumentava que se os Ingleses e Franceses tinham feito “as malas” tinha chegado a hora dos portugueses saírem também. E Menom em Londres já nos tinha avisado no final década de 40, na pessoa do nosso Embaixador, que os portugueses tinham de sair. A bem se o quiséssemos fazer. A mal se necessário. E Pandita Nehru perderia para sempre o seu enorme prestígio político. A máscara de “pacifista” tinha caído e aberto caminho a quem o desafiava no lado paquistanês e chinês.
4 – E como não queríamos sair, o Exército Indiano actuou. Aqui Salazar vendo o inevitável transmitiu ao Governador-Geral da Índia Portuguesa uma directiva de actuação. Constava: “organizar a defesa pela forma que melhor possa realçar o valor dos portugueses, segundo velha tradição na Índia. É horrível pensar que isso pode significar o sacrifício total, mas recomendo e espero esse sacrifício como única forma de nos mantermos à altura das nossas tradições e prestarmos a maior serviço ao futuro da Nação”. Salazar pede resistência total e sem limites o que implicava o sacrifício da própria vida. Aqui, perdoe-se-me. Não se pode pedir um tal sacrifício quando a desproporção de forças é enorme. O Exército Indiano juntou na Frente Goa, Damão e Diu, o que melhor tinha em homens e material, num contingente de 45 mil homens, para mais e não para menos. E com retaguarda próxima bem escudada em muitos milhares de soldados caso necessário. O Exército Português com pouco mais de dois mil combatentes espalhados pelas três frentes, mal armados e equipados, que pouco mais eram que símbolo de soberania. E com a sua retaguarda a milhares de quilómetros de distância. Aqui o Exército Português fosse qual fosse a sua atitude perante o adversário (inimigo) sairia sempre honrado. E o general Vassalo e Silva perante o que se lhe deparou, com coragem, tomou a única atitude possível. Cessar-fogo. A nossa grande aventura por terras tão longínquas tinha terminado. E não da melhor maneira. Mas foi a que pôde ser.
E o general Vassalo e Silva, e alguns dos seus subordinados, não mereciam o tratamento posterior. Razão tinha tido o Embaixador Marcello Mathias quando disse um dia, a Salazar, que a sair era preferível como na Praça de Mazagão.
5 – Mas também não aceito que, ainda hoje, a directiva de AOS seja tão criticada. Porque muitos anos antes outro homem de grande dimensão perante uma tão grande desproporção de forças dava precisamente a mesma directriz. Chamava-se Winston Churchill. Quando o Comando Militar Inglês de Hong-Kong pede instrucções perante o avanço japonês no II Conflito Mundial, Churchill não hesita e determina: “não pode haver qualquer ideia ou pensamento de rendição. Há que travar luta por todos os recantos da ilha”. Aqui Churchill é muito claro em que não admite que as forças inglesas se rendam. E para o Comandante Militar de Singapura a ordem vai ser ainda mais explícita: “Não pode haver qualquer pensamento de salvar tropas ou poupar população. A batalha tem de ser travada a todo o custo até ao seu fim amargo. Os comandantes e oficiais superiores devem morrer com as suas tropas. Está em causa a honra do Império Britânico e do Exército Britânico”. É muito doloroso o que estes dois Homens pediam às suas tropas. Mas não os podemos julgar por isto. Dois Homens que sentiam que o Tempo dos seus Impérios estava a chegar ao fim. E não queriam que esse Tempo fosse já. Pensavam que, talvez, por artes do destino, ainda fosse possível evitar o inevitável. Mas não era. Porque dois novos gigantes políticos e militares nasciam após a II Guerra Mundial: EUA e URSS. E eram eles que queriam o comando de um novo mundo que nasceria após 45. A Europa, a velha Europa, deixou-se apanhar. E foi palco de duas “guerras civis” que a deixaram exausta. Ontem como hoje. Hoje como ontem. E que ninguém se iluda. E no Estado da Índia nada valeu. Nem a NATO. Nem a velha de séculos Aliança Luso-Britânica. Custa…mas também temos de aceitar. E um dia fui surpreendido. Novo MNE na Índia.
Um tal Doutor Eduardo Faleiro. Nome bem português. Valha-nos isso.
6 – Mas nem só os nossos adversários não nos davam descanso. Em 62 os americanos voltam à carga. Mas, desta vez, mais de mansinho. JFK manda a Lisboa o Subsecretário de Estado George Ball para falar com Salazar. George Ball acumula três características extraordinárias que o recomendam para falar com o Chefe do Governo: é um homem de invulgar cultura, é um europeísta convicto e é um negociador nato. Três qualidades num homem só, perante outro homem de grande cultura, negociador experimentado e de profundas convicções políticas, reconhecidas tanto por amigos como por adversários. Sim. Também por adversários. Muitos dos que o ignoram publicamente, estudam e de que forma, o seu mando e a sua obra, até para com ele aprenderem uma certa “arte”. E que bem empregam nos dias de hoje. Mas mal. Porque aprendem mal.
Mas voltemos a George Ball. Encontro com Oliveira Salazar. E aqui a Cultura e a Política ao mais alto nível encontram-se. E convivem. E Ball quando o encontro termina, só lhe resta telefonar para Washington e transmite que afinal Portugal não era governado por um homem só mas sim por um triunvirato: Salazar, Vasco da Gama e Infante D. Henrique. Um significado: os valores que este líder encarna não são possíveis de serem modificados. Agora só o decorrer do tempo e muita paciência podem alterar o comportamento do aliado português.
7 – E só em 1965, precisamente em Setembro, os EUA voltam a insistir com Portugal. O Secretário de Estado americano e o Embaixador em Lisboa, o Almirante George Anderson, apresentam um plano ao MNE português Doutor Franco Nogueira. Segundo Norrie MacQueen (em A Descolonização da África Portuguesa) o plano não foi logo rejeitado por Salazar, e discussões prosseguiram entre Washington e Lisboa. Mas em Março de 1966 o lado português rejeitou-o, porque entendia que o chamado “Plano Anderson” apesar de muito bem elaborado, abria portas, que depois não podiam ser fechadas, mesmo com o auxílio dos americanos.
8 – E a vida continuava como habitualmente. Mas uma cadeira estava à espreita. Mal articulada. Em 1968. E o homem que nela se sentou para descanso, caiu, e nunca mais voltaria a ser o mesmo. E Salazar teve de ser substituído. E nem os maiores especialistas portugueses e americanos puderam fazer qualquer coisa por ele. E outro lhe sucederia. De grande dimensão. Mas também com idade e graves problemas de saúde familiares que o apoquentavam.
Era Marcello Caetano. A quem Américo Tomás confia a Presidência do Ministério. Com carta-branca para tudo. Apenas com uma advertência. Que se não fosse aceite, a nomeação não ia para a frente. O Ultramar não era passível de discussão ou cedências. Advertência acatada. Nomeação feita. As FA’s ficam sossegadas.
9- Mas, como em tudo na vida, há sempre um calcanhar de Aquiles. E tínhamos um. A Guiné. Governada e comandada por um militar de excepção. António de Spínola. O tenente-coronel de 61 era agora general e comandante-chefe em 68. E que, com o decorrer do tempo, mergulhado em decisões e contrariedades, que só homens excepcionais têm capacidade para enfrentar, como sejam a Operação Mar Verde (invasão da Guiné-Conakri) que não correu tão bem como era previsto, e o abate de aviões da FAP por mísseis SAM 7 (terra-ar) que indiciavam que o conflito na Guiné estava a mudar de escala, e que não possibilitavam apoio aéreo às operações no terreno. E resolve aceitar o diálogo com o Presidente Senghor do Senegal que, por várias vezes, mostrava vontade de ajudar Portugal para solucionar a questão da Guiné.
Senghor era homem de cultura superior e antigo deputado à Assembleia Nacional de França. E Spínola aceita ir secretamente conversar com Senghor, de forma a quebrar o impasse guineense. E uma confiança ilimitada nasce entre estes dois homens. E isto tem de ser transmitido a Lisboa. E ao Presidente do Conselho Marcello Caetano.
10 – Marcello ouve atentamente Spínola. Que deseja autorização para continuar as negociações com Senghor. Que lhe é negada. Perante isto Spínola contrapõe: a não haver negociações, pode estar em causa um colapso militar português na Guiné. Até porque as operações terrestres deixam de ter cobertura aérea de forma eficaz. E assim nada feito. Marcello mantém o que diz. Não a mais negociações. Mas acrescenta: prefiro uma derrota militar na Guiné, do que pôr em causa os territórios de Angola e Moçambique com essas negociações. Spínola não quer acreditar naquilo que ouviu. Uma coisa é uma derrota militar como na Índia em que dois Exércitos estão frente a frente. Outra coisa é acontecer às Armas Portuguesas o que aconteceu aos franceses em Dien Bien Phu, derrotados e aprisionados por guerrilheiros vietnamitas. E encarar como possível isso mesmo ao Exército Português às mãos dos guerrilheiros do PAIGC era de todo impossível de aceitar.
11 – Spínola parte para a Guiné. Deixa de acreditar em Marcello Caetano. E conta o que se passou aos seus militares de confiança. Com Marcello Caetano já nada era possível. A contagem decrescente começava para o Regime. A oficialidade portuguesa na Guiné começa a conspirar. Spínola não quer continuar e deseja ser substituído. E para Governador da Guiné e Comandante-Chefe vai outro militar de excepcional craveira: o general Bettencourt Rodrigues. E Spínola, com muitas ajudas, escreve Portugal e o Futuro. E é nomeado Vice-Chefe do Estado-Maior General das Forças Armadas, cargo que nunca existiu. Contra a vontade do Presidente da República. Que diz a Marcello Caetano que se fosse necessária a sua assinatura para a nomeação não a teria. E em 1974 sai o livro do general António de Spínola. Marcello Caetano lê o livro de uma assentada. E sabe que um qualquer Golpe de Estado está em marcha.
12- E como escrevi no primeiro texto. Não foi um Abril; foram dois. Agora a 25 de Abril de 1974. Com Marcello Caetano e Américo Tomás postos em causa, e a partirem para o exílio. Mas aqui, e logo aqui, e nesse dia, com outro derrotado. Era o general António Sebastião Ribeiro de Spínola. Que se tivesse comandado logo tudo de início, e dando a cara, talvez o que pensava para Portugal pudesse ser equacionado. Mas ao deixar tudo por conta e risco do Movimento das Forças Armadas, e assumindo o comando político e militar só após negociações com o mesmo, logo ali tinha o destino marcado. Porque Spínola se estivesse atento, teria que contar com os “imponderáveis da política” no dizer do Professor Doutor Silva Cunha, e como não contou com eles, por ignorância, ou excesso de confiança, deixou logo evoluir um Golpe de Estado para uma Revolução. E se o livro tinha poucas hipóteses de colocar em marcha o que continha, então agora é que não tinha mesmo viabilidade. Digo eu. E sabemos como tudo terminou. Uma Descolonização como foi possível, no meio das clivagens políticas e militares das Forças Armadas. Com Spínola a sair em 30 de Setembro de 1974, porque a sua autoridade estava minada e condicionada. E que teve de sair à pressa do País em Março de 75. E com todo o tipo de desmandos só travados em Novembro de 75. Faz este ano também 40 anos. Com o Regimento de Comandos a assumir o papel dos Paraquedistas em 1961. Mas isso já é outra história da História e da Geopolítica. Já agora, e só para alguns…estudem com a “velha” Oposição Democrática. Com Ramada Curto, Hélder Ribeiro, Hernâni Cidade, Armando Cortesão, Nuno Simões, Lopes de Oliveira, Alberto Madureira e Cunha Leal. Em política interna, desacordo total com Salazar. Na defesa ultramarina, em especial no primeiro embate de 61, não hesitaram. O Ultramar tinha de ser defendido, e depois logo se via. Primeiro o essencial, depois o acessório. Como deveria ser nos dias de hoje. E acreditem. Com estes textos que hoje finalizo, apenas acrescentei um grão ou dois de areia às “praias” que outros construíram.
Base Documental e Investigação: Coronel Viana de Lemos; Embaixador Franco Nogueira; Embaixador José Calvet de Magalhães; Professor Doutor Adriano Moreira; Almirante Américo Thomaz; Mestre José Freire Antunes; Professor Doutor Marcello Caetano; Marechal António de Spínola; General Silvino Silvério Marques; General Kaúlza de Arriaga; Norrie MacQueen; AHM; (outros).
Texto 1 (30.03.2015); Texto 2 (08.04.2015).

