(*)
Um céu cinzento e baixo,
Uma gota com pontaria
Que escorre costas abaixo,
Uma podre calmaria,
Uma espinha arrepiada,
Humidade a cem por cento,
Uma frase sem piada
Sobre um piso lamacento.
Uns cabelos encrespados
Mesmo que penteados,
E uma besta de um espelho
Que nem te tenta mentir,
Mostrando um rosto velho
Com ganas de discutir.
Uma irritação miudinha,
Por tudo, nada e com todos,
Que ninguém diga nadinha
Se não desejar maus modos.
E se ele ousar perguntar,
“o que se passa afinal?”,
O “não é nada, deixa estar”
Não é um ponto final,
Pois a sua obrigação
Será não acreditar
E voltar a perguntar
A causa da irritação.
E se ainda se atrever,
A afirmar nada ver
De diferente no teu rosto,
Temos então fogo posto,
Pois significa também
Que nos dias que estás bem,
O elogio que te faz,
Só o faz porque te apraz.
Então morto por falar,
Morto por estar calado,
Não é o pobre coitado
Que te vaidesenrolar.
Mas um dia soalheiro,
Uma ida ao cabeleireiro,
A compra de um novo trapo,
Transformará um farrapo
Numa mulher renascida,
Muito forte e decidida!
...até um cabelo espetado
A pôr de novo em mau estado.
Neura de mulher sente-se,
E neura de mulher vê-se,
E assim como aparece,
Pois também desaparece.
É que neura de mulher passa,
Porém é constante ameaça.
Helena Salazar Antunes Morais