Entrámos no Kerala por Kumily, no alto duma estrada de montanha que nos levou da planície tamil a um planalto que só lá mais para a frente se desfaz na planície keraliana, já na Costa do Malabar.
Uma mulher que fuja com o amante não abandona o marido, livra-o de uma mulher infiel.
Diz-se que o dinheiro não faz a felicidade: evidentemente alude-se ao dinheiro dos outros.
Sim, foi preciso chegar a Cochim para me lembrar de Sacha Guitry. Como assim? Pois pelo simples facto de este actor francês ter sido uma das raras expressões de humor durante o regime pró germânico de Vichy.
E isto porque os indianos não emigrados, à semelhança dos alemães, não têm sentido de humor: os alemães, certamente inspirados pelos seus sorumbáticos deuses do Walhala numa missão moralizadora de povos menos carrancudos, os hilários; os indianos, no seu esgravatar constante pela sobrevivência física, apesar da inspiração de Ganesh, o deus da felicidade, bonomia, humor.
É que em Cochim assisti a uma representação teatral muito bem-humorada levando-me a reconhecer que o erotismo védico não é humorístico e que «primum vivere, deinde philosophare». Esta prioridade não deixa, pois, tempo para chalaças. Como na Vichy de Pétain e de Laval. Malgré tout, Guitry fazia humor. E por isso me lembrei dele.
Palco totalmente despido de cenários, só as paredes, um narrador munido de um tamborim, uma personagem principal (à direita, na foto) e uma outra personagem que só entra na última cena de um espectáculo de mímica e som perfeitamente inesquecível pela subtileza alcançada.
Na primeira parte do espectáculo, a mímica de todas as expressões humanas desde a alegria à tristeza e ao rancor passando pelo espanto, pela sedução, pelo medo, pela coragem... Sem uma palavra, apenas o tamborim do narrador que só falou no início e se calou durante o resto do espectáculo. Na segunda parte, a sedução da personagem principal, pretensamente feminina, à secundária, obviamente masculina. Troca de razões, rejeição da abordagem, ira desbragada e revelação de que, afinal, a sedutora era um demónio assoberbando o inocente deus.
A eterna luta entre o bem e o seu contrário, entre deuses e demónios.
E por que é que o mal há-de ser sempre personificado no feminino? Cada vez mais me convenço de que os autores (não os fundadores mas talvez os discípulos escritores) de muitas das religiões que por aí pululam não gostavam de mulheres.
Até porque, como Guitry, sou a favor do costume de se beijar as mãos de uma mulher quando somos apresentados pois, afinal, é preciso começar por algum lado.
Lisboa, 4 de Dezembro de 2015
Henrique Salles da Fonseca
(navegando na baía de Cochim, NOV15)


