A bem da Nação

MUITAS E DESVAIRADAS GENTES – 4

 


 


Imagine-se uma sucessão sucessiva de lixo e entulho, tudo obedecendo a uma ordenação quântica do mais caótico que algum ser humano possa ter concebido e aí temos o Tamil Nadu no seu mais absurdo esplendor.


 


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Afinal, as fotos do profuso lixo que fizemos são cândidas face à realidade exibida publicamente na Internet, essa, sim, totalmente despudorada mas muito mais realista do que nós, inocentes turistas, conseguíramos captar. Os dejectos mais benignos que se poderão identificar são os excrementos das omnipresentes vacas e, a partir desse patamar, tudo é imaginável. E não há fronteiras físicas que separem o lixo das gentes, estas também amiúde tomadas por dejectos sociais ao abrigo da lei das castas.


 


À medida que progredíamos por esse Estado potencialmente riquíssimo que é o Tamil Nadu, apoderava-se de mim um sentimento de cumplicidade por nada fazer para combater este nojo de vida em que milhões de seres humanos vegetam. E dei por mim a imaginar formas de ordenação deste caos...


 


Ficou claro para mim que os culpados disto tudo são os políticos locais que, imagino eu à semelhança do Brasil, roubam de mais para que consiga sobrar algum do dinheiro que pudesse servir a recolha e incineração daquelas montanhas de lixo. Sim, o caos é tão absoluto que não me dou ao trabalho de imaginar políticas menos boçais do que a simples incineração. Só depois de uma primeira fase em que o fósforo reinasse é que daria para se imaginar a selecção para reciclagem ou reutilização, a «valorização energénita» dos não recicláveis, a compostagem, etc. Para já, haveria que recolher diariamente o conteúdo dos pouquíssimos e degradados contentores de lixo que se encontram na via pública e nada mais valeria a pena fazer até que as gentes tomassem a iniciativa de neles irem juntando o lixo que se espalha em seu redor. Mas para isso seria necessário que as Autoridades locais pagassem os custos dessa recolha, deposição e incineração. Haverá alguma Autoridade indiana disposta a pagar esse serviço? Temos que as convencer. Só que admito que esse processo de convencimento seja difícil, moroso e talvez até de índole psiquiátrica para, até prova concreta, não dizer anti-criminal.


 


Sim, o estado a que as coisas chegaram daria para incriminar judicialmente os políticos locais por descarado desrespeito dos direitos humanos dos seus cidadãos mas parece-me mais pragmático enveredarmos pela pedagogia. E essa passa pela denúncia deste caos e envergonhamento público dos políticos indianos em todos os fora internacionais a que a Índia pertença: calem a boca enquanto não limparem o lixo em que vegetam os vossos cidadãos!


 


Eis uma das razões mais fortes por que desta vez vim decepcionado da Índia. Mas todos seremos coniventes se nada fizermos para corrigir tanta degradação humana.


 


Vou tentar promover o estabelecimento de contactos entre as exemplares Autarquias portuguesas e as mais caóticas do Tamil Nadu. Haja esperança de que da conversa algo resulte.


 


Lisboa, 2 de Dezembro de 2015


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Henrique Salles da Fonseca


(à porta do Hotel Mantra, Kumbakonam, Tamil Nadu, NOV15)

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