A bem da Nação

MORREU O GAMA EM COCHIM

 


 


Há quem queira glorificar o rei-não,


O rei-nada, D. Sebastião.


O século dezasseis português trouxe glória, talvez,


Mas trouxe acima de tudo a desgraça ao português.


Morreu na Índia o jovem D. Fernando, como herói,


Filho de outro herói, o Almeida, morto ele também


Pela lança de um hotentote, sim.


Morreu lá o marechal Fernando Coutinho que fora roubar


As portas de ouro do Samorim.


Morreu o Albuquerque, outro herói dedicado


Com mágoa magoado por D. Manuel, o afortunado.


Foi Duarte Pereira, outro herói, preso por ordem do soberano,


Morreu o Gama em Cochim, sem nada p'ra descobrir...


Morreram quantos? Milhares... na busca da ilusão!


Morreu Camões em Lisboa, com Portugal acompanhado


Na solidão da desgraça, na pobreza da miséria.


 


Valeu a pena? Diz o poeta que sim.


 


Iludido pelas notícias que lhe chegavam


E pelas lisonjas que o fâmulos lhe prodigalizavam,


E pela fraqueza congénita de que sofria,


E pela menoridade em que o mantiveram,


D. Sebastião, rei-menino, no fim desse século insensato,


Sonhava em sobrepor-se a todos esses heróis fantásticos,


Como? Morrendo como todos morreram,


Na glória, na desgraça, no aniquilamento.


Não foi um herói, foi um louco


Dominado pela mania do suicídio.


Tinha o prazer desaustinado da auto-aniquilação,


Tinha a atracção do abismo


E para o abismo se lançou,


Levando consigo os Portugueses!


 


Que falta de senso, se é honesto,


Que falta de honestidade, se não o é!


 


 


Joaquim Reis

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