A bem da Nação

MÁXIMAS MÍNIMAS

 


 


É Florian o autor da fábula


«A lebre, os seus amigos e os dois cabritos»


Que vai ao encontro do soneto do nosso Camilo


Sobre os cento e dez ou talvez mais amigos que teve,


Dos quais só um restou quando cegou:


«Uma lebre de carácter cordial


Queria ter muitos amigos.


“Muitos! - dir-me-eis vós, - eis que são demais


Já que um é raro neste país.”


Tal e qual!


Mas a minha lebre tinha esta mania,


E desconhecia


Que já Aristóteles, aos jovens gregos admitidos


Na sua escola, lhes garantia:
“Meus amigos, não há amigos”.


Continuamente ela se ocupava


Em obsequiar, em agradar:


Se um coelho ia a passar,


Com doce ar educado


Corria para ele: “Meu primo,


- Informava ela,


Perto da minha toca existe um belo tomilho


Faz-me o favor de vir almoçar comigo”.


Se via um cavalo no campo a pascer


Ia abordá-lo:


“Talvez monsenhor queira beber:


No sopé do monte conheço um lago transparente


Que nenhum zéfiro faz ondular;


Se monsenhor quiser,


Podê-lo-ei lá levar.”


Assim, para todos os animais,


Veados, carneiros, gamos, touros, corcéis,


Complacente, diligente, cheia de zelo e desvelo,


A lebre queria deles


Fazer amigos fiéis,


Deles se julgava amada, já que os amava ela.


Certo dia em que tranquila na sua toca dormia,


O barulho da buzina a acorda, estridente.


Foge precipitadamente


Com quatro cães atrás dela.


Um maldito açulador os excita;
Eis a nossa lebre calcorreando os campos.


Vai, gira, volta, passa e torna a passar,


Salta, longos espaços transpõe


Para transviar os cães, e rápida como um raio,


Ganha terreno, depois pára,


Sentada, as duas patas no ar,


Olho e ouvido em riste, levanta a cabeça.


Procurando algum dos seus amigos avistar.


Encontra na mata um coelho


Que sempre como irmão tratara;


Corre para ele: “Salva-me por piedade,


À minha miséria dá abrigo,


Abre-me a tua toca; estás a ver o terrível perigo …”


“Oh! Como isso me aborrece! - responde com ar tranquilo


O coelho. Não posso, neste momento


Oferecer-te o meu asilo:


A minha mulher está em trabalho de parto,


A sua família e a minha enchem o apartamento:


Lamento-te sinceramente, adeus, minha amiga.”


Dito isto, escapou-se;
E eis a matilha a ladrar.


A pobre lebre volta a fugir, alguns passos adiante


Um touro encontra, que eventualmente


Ela ajudara, conforme o outro lho pedira.


Ternamente lhe suplica


Que detenha a matilha em fúria,


A quem os seus cornos amedrontarão.


“Ai! - diz o touro, fá-lo-ia bem do coração,


Mas a mais bela das vitelas


Está sozinha no bosque, eu ouço-a que me chama,


E tu não queres que eu atrase a minha chama…”


Dizendo estas palavras, parte, precipitadamente.


A nossa lebre, sem fôlego,


Implora em vão a um gamo, um veado de dez esgalhos,


Os seus amigos habituais; eles mal a escutam,


Com medo do barulho das trompas de caça.


A pobre desgraçada, já sem força e sem coragem


Vai entregar-se aos cães, quando, do meio dos bosques,


Dois cabritos, deitados sob a mesma folhagem


Ouvem as vozes dos caçadores.


Um deles levanta-se e parte; a matilha sanguinária


Larga a lebre e corre atrás dele.


Em vão o picador arreliado


Grita e pragueja e se irrita; através da floresta


O cabrito leva a caça,


Faz um longo circuito, e volta ao bosque


Onde o esperava o companheiro,


Que no mesmo instante parte em seu lugar.


Este faz o mesmo e durante todo o dia


Os dois cabritos lançados e alternadamente revezados,


Fatigam a matilha obstinada.


Enfim, os caçadores envergonhados


Tomam o partido de abandonar a caça;


Já a retirada soa, e os dois cabritos se juntam.


A lebre palpitando, aproxima-se e conta-lhes,


Assim os felicitando,


Que os seus amigos numerosos, neste perigo extremo,


A tinham abandonado. “Não estou surpreendido,


- Responde um dos cabritos paciente:


Para quê tantos amigos?


Basta um só, quando ele nos ama realmente.”


Nós por cá


Não temos razões de queixa


No que toca às amizades


Das nossas necessidades.


Costuma-se mesmo dizer


Que os amigos são para as ocasiões,


E não há válidas razões


Que contestem esta afirmação.


Pelo menos no que toca à nossa nação,


Em que os amigos de longa e até de curta data


Se interapoiam, diz-se, com muita lata,


Contestando esta outra máxima


Dos “amigos amigos, negócios à parte


Que é a dos amigos da lebre,


Ou, como quem diz, da onça,


De Peniche, ou de qualquer outro lugar


Segundo o nosso cepticismo habitual.


Para mais,


Vivemos numa época de solidariedade,


Não devemos descrer da amizade,


Jamais.


Muito menos nesta quadra do Natal


Em que um Menino nasceu para nos amar.


E se este Natal já passou, outro virá


Que o mesmo nos trará,


Segundo então se dirá.


Aristóteles é que antes d’Ele viveu


E por isso aos seus alunos ensinou


Que amigos não havia nenhum,


O que é pouco comum.


Outros filósofos, muito pelo contrário,


Descreveram a amizade


Como resultante de virtude


E de um natural necessário.


De bons amigos está, pois, o mundo cheio


Vemo-lo a miúde,


No nosso meio.


 


 Berta Brás

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