Para mim tenho (sempre tive, aliás) um saudável desrespeito por Sua Alteza Real, D. Mário Soares. Depois de ver o que vi dia 21 à noite, na Aula Magna, digo apenas isto: Se a demagogia pagasse imposto a nossa dívida já estaria saldada.
Com a devida vénia acrescento 4 comentários complementares:
a) Em democracia podemos, de facto, dizer o que nos vai na alma, devendo, porém, ponderar o que dizemos e assumir o que propomos, respondendo plenamente pelas nossas palavras e actos perante todas as instâncias;
b) o Presidente da República foi eleito democraticamente e só pode ser demitido por renúncia do próprio, morte ou impedimento permanente. Nenhum outro órgão de soberania pode demitir o Chefe de Estado. Este, em quem não votei, portanto sou insuspeito para falar, poderá ser criticado por alguma passividade ou imobilismo na situação actual, mas jamais, em tempo algum, desrespeitou a constituição. Se o fez que o provem preto no branco, o que até agora não foi feito por quem quer que seja. É, pois, totalmente falsa uma afirmação deste teor.
c) Por muito que a situação em que vivemos nos seja penosa (e é), não podemos ameaçar veladamente as instituições da República com a violência ou preconizá-la abertamente, como alguns o fizeram (e fazem).
d) É lamentável que o dito Encontro Patriótico/Congresso das Esquerdas não tenha proposto uma única alternativa viável, consistente e construtiva à situação vigente.
Criticar é fácil, fazer é difícil. Em minha opinião, perante a situação insustentável em que nos encontramos, o verdadeiro objectivo do Encontro foi o de criar, ou, se se quiser, alimentar uma situação de caos, porque ela já existe, tornando o país já de si dificilmente gerível, num vulcão incontrolável, imprevisível e perigosíssimo. A Esquerda festiva dos arraiais e das arruadas está a abrir a porta a uma ditadura feroz que poderá pender para qualquer dos lados do espectro político e prosseguir o seu rumo em direcções insuspeitadas, mas, hélàs, suicidárias.
Francisco Henriques da Silva
Embaixador
