A bem da Nação

MAIS SOFRIMENTO

A Dor humana não é só a da criança injustamente escorraçada na vida, embora essa seja, objectivamente, a que mais nos choca, vida iniciada na inocência  que só pode inspirar ternura, e repúdio contra o mal que lhe é causado. Mas são tantas as injustiças e impotências do mundo a merecer reparo, que só uma fé incomensurável pode aceitar de um Deus por princípio, justo, na realidade não subentendido na definição com a tríade dos omni - omnipresente, omnipotente, omnisciente. Mas também a Dor pode ser objecto de recriação extraordinária, mais ou menos objectivamente descrita, entre nós, de Camões a António Nobre. Ninguém, contudo, como Mário de Sá Carneiro, debatendo-se no seu mundo agónico, em recriações de beleza e dispersão, para traduzir a quintessência do sofrimento puro - o da desilusão constante - em arte pura:



Ângulo


Aonde irei neste sem-fim perdido,


Neste mar oco de certezas mortas?


Fingidas, afinal, todas as portas


Que no dique julguei ter construído... 


 


Barcaças dos meus ímpetos tigrados,


Que oceano vos dormiram de Segredo?


Partistes-vos, transportes encantados,


De embate, em alma ao roxo, a que rochedo?... 


 


Ó nau de festa, ó ruiva de aventura


Onde, em Champanhe, a minha ânsia ia,


Quebrastes-vos também ou, por ventura,


Fundeaste a Ouro em portos d'alquimia?...


............................................................


 


Chegaram à baía os galeões


Com as sete Princesas que morreram.


Regatas de luar não se correram...


As bandeiras velaram-se, orações... 


 


Detive-me na ponte, debruçado,


Mas a ponte era falsa - e derradeira.


Segui no cais. O cais era abaulado,


Cais fingido sem mar á sua beira... 


 


Por sobre o que Eu não sou há grandes pontes


Que um outro, só metade, quer passar


Em miragens de falsos horizontes


Um outro que eu não posso acorrentar... 


 


Mário de Sá-Carneiro, in 'Indícios de Oiro'


 Berta Brás


0