NOTA PRÉVIA:
Magaíça – trabalhador moçambicano nas minas da África do Sul.
A aculturação foi feita de tal modo que os homens do sul de Moçambique só são aceites para casamento depois de terem estadodois anos nas minas sul-africanas.MAGAÍÇAA manhã azul e ouro dos folhetos de propagandaengoliu o mamparra,entontecido todo pela algazarraincompreensível dos brancos da estaçãoe pelo resfolegar trepidante dos comboiosTragou seus olhos redondos de pasmo,seu coração apertado na angústia do desconhecido,sua trouxa de farraposcarregando a ânsia enorme, tecidade sonhos insatisfeitos do mamparra.E um dia,o comboio voltou, arfando, arfando...oh nhanisse, voltou.e com ele, magaíça,de sobretudo, cachecol e meia listradae um ser deslocadoembrulhado em ridículo.Ás costas – ah onde te ficou a trouxa de sonhos, magaíça?trazes as malas cheias do falso brilhodo resto da falsa civilização do compound do Rand.E na mão,magaíça atordoado acendeu o candeeiro,à cata das ilusões perdidas,da mocidade e da saúde que ficaram soterradaslá nas minas do Jone...A mocidade e a saúde,as ilusões perdidasque brilharão como astros no decote de qualquer ladynas noites deslumbrantes de qualquer City.
Noémia de Sousa (Catembe, 20/9/26-Lisboa, 4/12/02)(…)
Estes últimos dias de rapaz foram passados com os outros iniciados e achei a camaradagem agradável. O abrigo era perto da casa de Banabakhe Blayi, o rapaz mais rico e mais popular da escola de circuncisão. Era um rapaz cativante, campeão do jogo do pau e um galã cujas muitas namoradas nos mantiveram a todos fornecidos de petiscos. Embora não soubesse ler nem escrever, era um dos mais inteligentes entre nós. Regalou-nos com histórias das suas viagens a Joanesburgo, um lugar aonde nenhum de nós jamais tinha ido. Entusiasmou-nos tanto com histórias das minas que quase me convenceu que ser mineiro era mais interessante do que ser monarca. Os mineiros tinham uma mística; ser mineiro significava ser forte e ousado, o ideal da masculinidade. Muito mais tarde dei-me conta que eram as histórias exageradas de rapazes como Banabakhe que faziam com que tantos jovens fugissem para trabalharem nas minas de Joanesburgo, onde muitas vezes perdiam a saúde e a vida. Nesses tempos, trabalhar nas minas era quase tanto um rito de passagem como a escola de circuncisão, um mito que ajudava mais os proprietários das minas do que o meu povo.
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LONGO CAMINHO PARA A LIBERDADE – Nelson Mandela, Autobiografia (pág. 35)
