A bem da Nação

LUSOFONIA – 8

 


 UM CONVITE AO SIGNIFICADO

 

O MODELO DO FUTURO E

O SIGNIFICADO DA PALAVRA – 2

 

 

 

 

A primeira pergunta que coloco é muito simples: haverá alguma alternativa plausível ao cenário de globalização em curso?

 

De resposta muito dúbia, parece mais fácil procurarmos um modelo próprio de desenvolvimento compatível com o que nos é servido do que estarmos a tentar mudar por nós próprios o rumo da História do mundo. Não temos hoje a importância relativa que tivemos no séc. XV mas também nunca tanto como hoje a decisão colectiva passa pelo somatório das decisões individuais.

 

E se não podemos discutir a História e o rumo que ela se prepara para tomar, entremos nesse barco e viabilizemo-nos dentro dele.

 

E é nessa tentativa de viabilização que as perguntas continuam:


  • Com que massa cinzenta poderemos contribuir para o desenvolvimento desta aldeia global?

  • Que teses académicas com inquestionável repercussão científica internacional são na origem escritas em português?

  • No ranking mundial de Universidades, em que lugares se colocam as instituições da Lusofonia?


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  • Que estrangulamentos existem no mundo lusófono para que ainda hoje, séc. XXI adentro, continuemos sujeitos ao flagelo do analfabetismo?

  • Que forças gravitam na actualidade em torno das nossas elites: centrífugas como antigamente ou finalmente centrípetas?


 

Se não dermos respostas a estas questões, então não teremos lugar na História e não mais haverá centro, periferia nem palavra digna de nota.

 

Eis que, assim, o modelo do futuro

 


  • Passa pela transformação das elites em elementos agregadores das nossas sociedades não mais podendo constituir instrumentos da repulsa;

  • Passa pelas Diásporas a servirem o engrandecimento dos Centros;

  • Passa pela pluricidadania lusófona;

  • Passa pela vulgarização da palavra.


 

E se as elites têm que passar a congregar o resto das gentes, teremos que:

 



    • Banir os resquícios de corporativismo que ainda nos entorpecem a actualidade, v.g. as Ordens profissionais e seu imperial magistério;

    • Promover rapidamente a concorrência inter-universitária dentro de cada país, no espaço lusófono e no mundo inteiro;

    • Garantir uma claríssima elevação do nível médio cultural dos nossos povos;

    • Promover o analfabetismo adulto a "coisa" do passado.



 

E se as Diásporas devem passar a servir os Centros, isso significa que a emigração não mais deve continuar a ser uma tábua de salvação a que os deserdados se agarram avidamente, para passar a ser um instrumento de obtenção da dimensão empresarial que o mercado doméstico é incapaz de garantir.

 

E se a solidariedade não é palavra vã, então Portugal tem a obrigação histórica de promover um estatuto de acolhimento especial a todos aqueles povos que alguma vez governou por esse mundo além, tudo culminando num processo de pluricidadania lusófona, em clara fraternidade internacional.

 

E se "é a falar que a gente se entende", então temos que fazer com que o Instituto Camões deixe de divulgar a nossa palavra apenas nas Academias e Universidades para passar a fazê-lo com as portas abertas directamente para a rua, que é onde os povos se cruzam.

 

Por tudo isto eu digo que o modelo vigente se esgotou.

Por tudo isto eu digo que não me preocupo mais com o "politicamente correcto".

 

Felizmente, temos um grande sentido claustrofóbico, não cabemos no nosso Centro e, sem pretensões hegemónicas, levamos a nossa Cultura onde os caminhos do mundo nos conduzem. E é por não querermos a hegemonia que por vezes a obtemos, porque somos admitidos pelos que nos recebem, porque a nossa é uma perspectiva de vida, de a todos deixarmos viver, com todos vivermos e até com todos nos misturarmos em pé de igualdade, sem sobrancerias mas cujo grande problema da actualidade é, afinal, no território europeu, o da reposição demográfica. Assim, com a naturalidade da vida, vemos os factos que se nos apresentam.

 

E já que Cultura é a perspectiva com que se observa o facto, façamos com que onde nós estivermos esteja a Cultura Lusófona.

 

Este, o meu convite ao significado da saga dos filhos de Ofiuza, a terra da serpente.

 

 Henrique Salles da Fonseca

 

Bragança, 5 de Outubro de 2007 – VI Encontro da Lusofonia

 

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