A bem da Nação

LIVRE-NOS DEUS DO FACALHÃO

 


 


Trocámos opiniões


Sobre uns casos de animais


Salvos pelas nossas intervenções,


Distanciadas no tempo, é certo,


Mas reveladoras de uma extrema sensibilidade


E acerto.


Contou-me o Dr. Salles andar envolvido


Numa chocante história de coudelaria


Que o trazia


Nervoso, e mesmo atazanado


Pois o caso é de atrocidade...


Sucedeu que a égua, mãe do seu cavalo,


- Que não sei se é ruço,


Como o Gingão


De Nuno da Câmara Pereira,


Que foi morto por um toiro repontão


E deixou por isso o fadista


Mergulhado em negra saudade -


Dizia eu, pois, que a mãe do seu cavalo,


Sua “comadre” “Marquesa


Fora destinada para o talho


Para ser vendida a retalho,


O que lhe causara grande engulho


E enorme tristeza.


 



 


Pois tanto disse e fez,


Que os talhantes de faca e alguidar


Que já afiavam o beiço para o prazer


De estraçalhar para vender,


Ou mesmo só de ingerir,


Tiveram que desistir


De a comprar e em postas fazer


Porque, como diz o Dr. Salles,


Muito egoisticamente jovem,


Nem só de pão


Ou de postas vive o homem.


Como conseguiu impedir


Tal atrocidade,


Anda já mais animado,


Porque teve suficiente tenacidade


Para impedir que a “Marquesa” sua “comadre”,


Mãe do seu cavalo amado,


Fosse parar à barriga de uma qualquer insaciedade.


Contei-lhe,
então, a história de um galaró


A quem logo de manhã o meu pai ordenava


Que cantasse e ele cantava


E cuja morte para a carilada


Eu consegui um dia impedir, transtornada,


Agarrando-me com força a ele,


Cujo coração palpitava, palpitava.


Mas, afinal,


Ele pôde prosseguir


No seu cocorocó matinal


Porque o salvei por então


Da sua triste fatalidade.


 



 


Quando a fatalidade chegou eu não estava,


Não vi, não soube, acabara.


Em conclusão,


Os animais aqui não são a fábula,


Mas o Dr. Salles e eu mesma


Podemos na rábula significar a fábula,


Dando provas de uma sensibilidade


Risível, talvez, para a comunidade,


Resumida, enfim, na proposta de moralidade:


“Livre-nos Deus do facalhão”,


Que o Dr. Salles, enfastiado, propôs para conclusão.


Mas o que é certo é que sempre o facalhão do nosso enguiço


Nos pende sobre o toutiço.


Mais tenebroso e eminente


Que a espada que sobre
Dâmocles foi pendente.


 


E sempre por culpa nossa,


Nossa!


 


 


 Berta Brás

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