COMUNIDADE HUMANA É COMUNIDADE VIRTUOSA
in "O Público" – 22 de Maio de 2006
1.Sem dúvida, no interior do PCP, parece hoje incontestável a tese de que uma qualquer revisão da sua tradicional linha dura (marxista, leninista, estalinista) acarretaria a morte do partido. De acordo com essa tese, qualquer revisão levaria, quando muito, a um outro partido renascido na linha euro-comunista (de Berlinguer e Carrilho, por exemplo); mas esse partido seria um nado morto. Como sucedeu em outros países europeus. A própria reafirmação da linha tradicional cunhalista, que a figura de Jerónimo de Sousa trouxe ao partido em substituição de Carvalhas, resultou num benefício: num maior revigoramento e até numa surpreendente maior resistência eleitoral do PCP.
2. A ser aceitável como hipótese de trabalho, não é a sorte concreta do PCP o que a partir desta análise resulta mais interessante explicar. É, sim, em Portugal, não só a preservação mas até mesmo o sucesso de algo que, para usar a expressão de Mário Soares, já é do tempo dos dinossáurios. Com efeito, se em nenhum país (e nem mesmo na China) se acredita ainda no paradigma marxista-leninista para viver e progredir; se já em nenhum país (e nem mesmo em Portugal) os intelectuais, sequer os mais radicais e extremistas, se atrevem a defender a doutrina marxista-leninista, como explicar o relativo sucesso eleitoral do PCP português?
3. A mim me parece que a maioria dos eleitores portugueses do PC não votam no marxismo-leninismo. Votam, sim, revendo-se no concreto discurso reivindicativo e crítico do PCP. Votam por essa hábil combinação de reivindicações, quer económicas quer políticas, que além de ser a favor dos pobres vão contra os ricos (empresários) e poderosos (políticos). Votam por um bem-estar que seja não apenas restaurador das pobrezas e misérias, mas seja também vingador das fraquezas e frustrações. É por isso que não lhes basta o discurso do socialismo redistributivo, porque este é pacientemente (direi, virtuosamente, democraticamente) reformista.
4. Não dou demasiada importância a esta questão política; mas importa-me a questão cultural que lhe está subjacente. E quando digo cultural, não quero remeter para os níveis de alfabetização, ou de literacia, como agora se prefere dizer. Quero remeter para aquela complexa e vital atmosfera de leituras do mundo e da vida, e de sentimentos de uma comum convivência, que permite a uma "sociedade" humana ser mais do que uma "associação" de conveniência. Ser uma verdadeira comunidade, isto é, inter-activa (liberdade), cooperativa (justiça) e pacífica (fraterna). Só neste ambiente de pensar, de sentir e de agir, se pode ter um projecto de vida em comum, isto é, de futuro.
5. É aqui que introduzo uma afirmação que, nos dias de hoje, será provavelmente polémica e mal vinda. E a afirmação é esta: não é possível uma comunidade humana livre, justa e pacífica, com um projecto comum de futuro, se não for uma sociedade virtuosa. Repetindo pela negativa: se uma comunidade não for virtuosa (isto é, não tiver uma cultura de virtudes), não será humana ou estará em vias de deixar de o ser.
6. Acima iniciei estas minhas reflexões com o caso do PCP. Devo acrescentar que, se é verdade que Portugal me parece ser, neste aspecto, um case study, difícil me parece fazer o estudo como fenómeno isolado. E sem deixar de o correlacionar com a situação global do País. Falemos claro, por que não? Afinal, que gente somos nós? Que cultura é a nossa? Somos gente de convicções? Ou sobretudo de reacções?
7. Olhando para trás, para a nossa história, penso que sempre nos portámos bem quando foi preciso reagir. Por exemplo, nos vários episódios da preservação da nossa independência. E, curiosamente, com reacção popular, ou popularmente apoiada (isto é, culturalmente apoiada). Mas duvido de que nos tenhamos portado igualmente bem nos períodos históricos em que, em vez de "apenas" reagir, era "simplesmente" preciso agir. Peço desde já benevolência para com estas minhas reflexões, aos ilustres peritos nestas matérias de história e de análise da identidade portuguesa, se por acaso não coincidirem com o seu saber; mas atrevia-me a ir mais longe, "reagindo" talvez com uma incómoda e perturbadora sensação de que estamos (de novo) decadentes.
8. Mais longe, por isto. Sem dúvida, a empresa dos descobrimentos
portugueses foi tão gloriosa que só é comparável à moderna exploração espacial. Mas... essa empresa não foi activamente do país. Foi de uma iniciativa privada, meio portuguesa meio inglesa: Henrique, o Navegador, era filho e educando de uma grande senhora inglesa. A verdade é que logo que na empresa dos descobrimentos se passou a uma participação intensiva do poder político e a uma participação alargada da sociedade civil, logo começou a decadência: leia-se o "Soldado Prático", de Diogo do Couto, para equilibrar os arroubos de Camões, e recorde-se como depois se perdeu toda a vantagem de progresso que se tinha ganho. Dir-se-ia que os portugueses são excelentes como colaboradores, na condição de não serem co-decisores.
9. Ora sucede que hoje não temos "nem mestres nem senhores" que nos
dominem com eficácia e sem contestação. Nem, por outro lado, temos grandes motivos de reagir (a não ser, molemente, para manter o status quo). Pior: por acréscimo temos uma espécie de ideologia implícita desta atitude - que, à falta de melhor, e antecipadamente pedindo desculpa pela crueza, designarei como ideologia de "panem et circenses". Como se sabe, foi esta a expressão para exprimir a decadência romana, que se contentava em exigir do poder político pão e jogos de circo. Isto é, em termos de hoje: bem-estar económico e vida prazenteira. Nada, pois, de sacrifícios próprios – que só a virtude justifica e além disso pratica.
10. Na nossa história, a questão da decadência foi recorrente? Talvez.
Pelo menos houve gerações ilustres que a colocaram na ordem do dia do debate cultural. Mas depois, não foi por via cultural que se fez qualquer regeneração. Foi por via política que se fizeram revoluções.
Ora hoje, continuamos sem reparar que... não é a política, "estúpidos" que nós somos... Nem a economia... Mas é sim a virtude! Isto é: a cultura!
Mário Pinto, Professor Universitário