A bem da Nação

LIDO COM INTERESSE – 37

 


 

 

Título: A MORTE DE IVAN ILITCH

 

Autor: Leão Tolstoi

Tradutor: Adolfo Casais Monteiro

Editor: Quasi Edições

Edição: 1ª, Julho de 2008

 

 

Quando se fala de literatura russa logo imaginamos calhamaços gordos de leitura pesada com uma trama muito enleada e um rol infindável de personagens. Guerra e Paz e Anna Karenina são disso bons exemplos e dá para não imaginarmos Tolstoi a escrever pequenos contos, de fácil leitura e sem sentirmos a necessidade de tirar apontamentos para identificação das personagens.

 

Pois é o que sucede com este livrinho de 90 páginas de leitura muito agradável, boa para período estival, que o "Diário de Notícias" teve a feliz ideia de distribuir com uma das suas edições de Agosto. Os pergaminhos do tradutor dispensam dúvidas quanto à qualidade literária do que nos chega às mãos.

 

E a propósito do contraste entre o raciocínio tipicamente ocidental, o cartesiano da evidência-análise-síntese e o de inspiração eslava, de rodeios sucessivos sem aquele tipo de obediências, fica-se espantado com a linearidade que Tolstoi assume nesta narrativa. Esperaria tudo de um escritor russo menos a referência à lógica aristotélica e a citação de silogismos: «Caio é homem, os homens são mortais, logo Caio é mortal…».

 

É nesta sequência que, a propósito da aproximação da morte, o personagem central lastima que tanta sabedoria e tantos sentimentos, os seus, possam brevemente ser desperdiçados e mandados para baixo da terra. Que os outros morram, é uma ocorrência normal; mas ele próprio? Ah isso é uma «coisa falsa, anormal, doentia».

 

Sim, também concordo, é um crime não se escrever mais e levar para a cova uma imensidade de conhecimentos e de sentimentos.

 

E a propósito de «ir para a cova», Tolstoi descreve no livro com algum detalhe a causa da doença e os sintomas que cresceram até ao desenlace fatal. A ciência médica da época diagnosticou um rim flutuante ou uma apendicite prescrevendo apenas analgésicos (ópio e morfina) como solução para o conforto do doente. Pese embora eu não ser médico, parece-me que Ivan Ilitch partiu o baço e disso morreu mas nada melhor do que pedir à classe médica que se debruce sobre o caso e diga de sua alta justiça.

 

Lisboa, Outubro de 2008

 

Henrique Salles da Fonseca

 

0