A bem da Nação

LIDO COM INTERESSE – 25


Título: RIO DAS FLORES


                                  Autor: Miguel Sousa Tavares


                                  Editores: Oficina do Livro


                                  Edição: 1ª, Outubro de 2007


 


 


                                               


 


Em Portugal todos o conhecemos. É uma figura pública no sentido literal do termo porque qualquer residente o conhece dos telejornais de um certo canal em que aparece semanalmente a comentar algumas notícias da ocasião. E também todos sabemos que tem boca e não manda assoprar. À semelhança do pai, diz o que pensa e transmite-nos a certeza de que não está com a preocupação de saber se a sua é a opinião politicamente correcta. O pai também não esperava que lhe dissessem o que devia ou não afirmar e assim foi que, quando era Director do jornal "A Capital" nos idos 70 post-revolucionários, ajudou decisivamente à reposição dos princípios democráticos no meio da revolução que se bolchevizava a olhos vistos. O filho não esconde ser filho do pai. Pode não o fazer de propósito mas que o faz, faz. Também o sabemos fanático do Futebol Clube do Porto e filiado ou simpatizante do Partido Socialista (qualquer lisboeta benfiquista ou sportinguista e democrata cristão seria levado a dizer que «não se pode ser perfeito»…) mas isso só lhe dá mais verve quando lhes zurze.


 


É claro que me refiro ao Autor deste livro que gostei de ler. E também no livro, Miguel Sousa Tavares não engana ninguém: dá as sua opiniões claras e quem não concordar com elas só tem a solução de … discordar (Monsieur de La Palisse não diria melhor).


 


E as opiniões vão desde o regime de Salazar, à Monarquia, à República, à Democracia, às gentes e por aí além de tal modo que não posso referi-las a todas sob pena de transcrever aqui o livro o que não só não faria qualquer sentido como retiraria interesse a quem o vá ler de seguida.


 


Mas como se trata de um romance, caracteriza certas facetas que se está mesmo a ver que ele próprio não subscreve. Dentre muitos exemplos que poderia repescar, cito o que ilustra o pensamento dos apoiantes da Ditadura Militar que em Portugal se instaurou em 1926:


 


" (…) O ideal seria vivermos sempre num país civilizado, como a Inglaterra, onde toda a gente tivesse uma opinião abalizada e respeitável sobre os assuntos de que fala. Mas isto é Portugal, meu querido mano: aqui falam todos e ninguém se entende, porque a República deu a todos o sagrado direito constitucional à asneira. Mas, como bem sabemos, vozes de burro não chegam ao céu e não acrescentam nada aos males da terra – só os agravam. Como dizia o nosso pai, nenhum país progride se as elites não assumem o poder. E, se não o assumem porque aquilo a que tu chamas democracia faz com que as elites sejam esmagadas pelos ignorantes ou pelos simplesmente invejosos, então há alturas em que o único caminho é a força. O da ditadura, justamente. Eu acho que este é um desses momentos. Prefiro ver Portugal restaurado em ditadura do que destruído em democracia. (…)" – Pág. 80


 


Já sobre os homens, admito que pense exactamente o que escreve e que eu também acho fazer grande sentido:


" (…) Todos os homens gostam de rotinas. Uns gostam de começar o dia tomando o pequeno-almoço em casa e folheando os jornais; outros preferem fazê-lo no café da esquina; outros acham que a barbearia é o lugar certo para tomar o pulso ao dia que está pela frente. Uns gostam de uma boa conversa logo pela manhã, outros só pedem que os deixem em paz e em silêncio. Uns habituam-se a escutar as queixas das mulheres ou as lamúrias dos filhos assim que acordam e esse som de fundo faz-lhes falta, outros só conseguem fixar a porta da rua e só se sentem prontos a enfrentar o dia quando a fecham atrás de si. Mas todos, todos, precisam de uma rotina logo pela manhã. Só os loucos é que não precisam disso – e por isso é que são loucos. (…)" – Pág. 397 e seg.


 


E mais não cito.


 


O romance? É claramente um enredo para ele ter a oportunidade de dizer o que pensa sobre muita coisa. Coisas passadas mas que justificam muito do presente.


 


A quem gosta de Portugal sugiro vivamente esta leitura.


 


Lisboa, Abril de 2008


 


Henrique Salles da Fonseca

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