A bem da Nação

LIDO COM INTERESSE – 15

 


 


 


Título: Bocage – a vida apaixonada de um genial libertino


Autor: Luís Rosa


Editora: Editorial Presença


Edição: 1ª, Dezembro de 2006


 


 


 


Apresentado como se tratando de um romance, é contudo um passeio muito plausível pela História de Portugal no período correspondente à vida do poeta.


 


Diálogos presumivelmente fictícios entre personagens historicamente identificadas e com muitas transcrições das obras mais relevantes do poeta, são 219 páginas de leitura fácil e agradável.


 


Sem pretensões de grande elevação filosófica, não deixa o autor de nos agradar com reflexões apropriadas ao contexto histórico que se viveu em Portugal na parte final do consulado pombalino, durante a Revolução Francesa e na “contra-marcha” desencadeada por Pina Manique. Interessante a perspectiva que nos transmite da Inquisição numa derradeira tentativa de sobrevivência entre a sociedade beata personificada pela Rainha D. Maria I já abandonada pela sensatez e o jacobinismo de muitos estrangeirados também eles avessos à ponderação.


 


Breve digressão pelas Províncias do Norte do Estado de Goa e a expressão da amargura que se apoderou de Bocage em resultado dos descaminhos em que se meteu não reconhecendo que estava a lidar com uma civilização diferente da sua mas certamente de grande elevação. 


 


 


SONETO DOS GAFANOS


(ou do impossível)


 


 


                                          Quer ver uma perdiz chocar um rato,


                                          Quer ensinar a um burro anatomia,


                                          Exterminar de Goa a senhoria,


                                          Ouvir miar um cão, ladrar um gato;


 


Quer ir pescar um tubarão no mato,


                                          Namorar nos serralhos da Turquia,


                                          Escaldar uma perna em água fria.


Ver uma cobra castiçar co’um pato;


 


Quer ir num dia de Surrate a Roma,


Lograr saúde sem comer dois anos.


Salvar-se por milagre de Mafoma;


 


Quer despir a bazófia aos castelhanos,


Das penas infernais fazer a soma.


Quem procura amizade em vis gafanos?


 


 


Deserção pela porta nascente de Damão para embarque clandestino rumo a Malaca e daí até Macau onde bate no fundo da escala e acaba por ser misericordiosamente embarcado para Lisboa.


 


Regresso à estroina da cidade e prisão no Limoeiro à ordem de Pina Manique; prisão nos conventos de S. Bento da Saúde (hoje, o Parlamento) e das Necessidades (hoje, o Ministério dos Negócios Estrangeiros) à ordem da Inquisição; libertação e regresso à libertinagem até que os médicos lhe diagnosticam um aneurisma; modorra progressiva até ao dia em que o povo da cidade acorreu ao Largo do Calhariz para chorar a morte do seu poeta.


 


O livro chega ao fim com algumas frases bem aplicadas: «Morreu de vida cheia. Falou à vontade porque nasceu do lado do futuro. Por isso foi livre.» e encerra com a transcrição do célebre soneto


 


                                  Já Bocage não sou! … À cova escura


                                  Meu estro vai parar desfeito em vento …


                                 


É pena que não apareçam mais obras deste género sobre tantas outras figuras da nossa História que entretanto se vêem presas em livros de grande erudição mas maçudos e desinteressantes para quem não pretenda aceder a níveis de transcendência meramente escolástica.


 


Meritória divulgação duma simpática figura da nossa Cultura.


 


 


Lisboa, Abril de 2007


 


 Henrique Salles da Fonseca

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