A bem da Nação

LIÇÃO POLICIAL

 


Foi La Fontaine um fabulista


Que às fábulas de Fedro ou de Esopo


Soube acrescentar traços de poeta


E de romancista.


Assim, acrescentou, para sua glória,


Nesta nova história, que não é da treta,


Mas dum Lobo que de gente se disfarçou


Para melhor alcançar o que a sua fome pedia,


Traços de humor, numa caracterização


Feita de sabedoria,


E de muita certeza


A respeito da humana natureza:


 


«O Lobo tornado Pastor»


É como se chama a fábula de mais uma ladinice


De grande qualidade,


Com que La Fontaine brindou a humanidade:


«Um Lobo, que começava a colher parte escassa


Das ovelhas da vizinhança


Achou que, para sua bonança,


Devia com a pele da raposa se prover


E gizar uma nova personagem


Para se dar sorte.


Veste-se de pastor, enfia uma farda


Faz o cajado dum pau bem forte


Sem a gaita-de-foles esquecer.


Para o embuste levar até ao fim,


Gostaria de ter escrito no chapéu:


“Sou eu que sou Guillot, pastor deste rebanho”.


Construída a figura assim,


Os pés da frente pousados no cajado,


Guillot, o sicofanta, aproxima-se devagar.


Guillot, o verdadeiro, na erva estendido,


Dormia profundamente;


Também o seu cão estava adormecido


E a gaita igualmente;


Das ovelhas a maioria


Dormia, dormia.


O hipócrita deixou-os dormir;


E para poder


Para o seu forte as ovelhas conduzir


Quis acrescentar


A palavra à acção


Isto é, ao vestuário,


Coisa que ele achava necessário.


Mas o que se passou


Foi que esse embuste o primeiro estragou,


Por não conseguir


A voz do pastor reproduzir.


O tom que usou


Fez o bosque troar


E toda a sua farsa denunciar


Mesmo sem um detective a ajudar.


Cada um a esse som despertou,


As ovelhas, o cão, o rapaz.


O pobre Lobo, com todo este escândalo,


Impedido pelo vestuário,


Não pôde nem defender-se nem fugir.


Sempre por qualquer indício


Os embusteiros se deixam apanhar.


Quem for lobo deve como tal agir:


É o mais certo, por ser menos fictício.»


 


Quanto a mim, esta fábula prova


Uma vez mais,


Que o silêncio é de oiro


E a palavra de prata.


Direi mesmo de lata.


Às vezes o maior pecado


Está no excesso de explicação


Que por simpatia ou até compaixão


Pelo povo que se diz maltratado,


Um poderoso pretende denunciar


Um paralelismo ou sequer uma igualdade


Bem longe da realidade.


Mas os pastores são horríveis a vingar-se,


Autênticos lobos ferozes a rebelar-se,


Contra o pobre lobinho definhado.


 


 Berta Brás

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