Publicou o Dr. Salles um texto intitulado “A Parametrização social” apoiado na seguinte observação colhida num livro de D. Manuel Clemente:
A ultrapassagem do metafísico pelo positivo só se sustentou enquanto este último viveu da herança dos estádios anteriores (teológico e metafísico). Porém, o sucessivo afastamento e descuido em relação àquelas fontes deixou-o animicamente esvaído e eticamente desamparado.
A síntese do Dr. Salles, que com tanto gosto guardo no meu blog (http://poramaisb.blogspot.pt/), afigura-se bastante pertinente, apontando dados precisos que, pondo a tónica na incurável iliteracia de que enfermou o povo português ao longo dos séculos, a sua formação para a cidadania dependendo não de valores éticos ou humanistas mas de ameaças punitivas do pecado, numa cultura por longos anos acanhadamente hierática e maniqueísta, o projectou numa incapacidade de evoluirmos num sentido de dignificação e ajustamento a outras formas de pensamento mais equiparáveis à de outros povos que estudam e trabalham e planeiam o futuro das gerações que se lhes seguirão.
A ele apus o comentário:
A cultura em Portugal fez-se sempre por processos elitistas, em fracturas estrondosas – entre a cidade e o campo, entre os ricos e os pobres, entre os nobres e a plebe. Nunca houve uma generalização cultural que impusesse o respeito humano sem ser sob o efeito da subserviência ou do favorecimento. Mesmo os méritos são avaliados segundo parâmetros de participação política. A democracia trouxe uma reviravolta que é só aparente, vazia e oca, o povo chamado a manifestar-se, a maioria das vezes não como seres conscientes, mas como rebanho indisciplinado, manipulado pelos condutores instigadores. A nobreza dos valores abstractos, como o sentido de pátria, foi riscada do mapa das consciências, cada um pugnando pelos seus direitos próprios, não pelo estudo e a reflexão, mas pela sensibilidade folclórica que o fado nos inspira.
Enquanto, para D. Manuel o espiritualismo, apoiado nos valores transcendentais, parece dever impor-se sobre os valores do materialismo, Salles da Fonseca põe a tónica na formação racionalista, como fundamental para a tomada de consciência e o reconhecimento dos limites da liberdade, ou da autenticidade do sentido de democracia.
O dia de hoje, 25 de Abril, mostrou em pleno Parlamento que tal sentido é inexistente para a maioria – nos discursos denegridores dos parlamentares da esquerda, na deselegante falta de aplauso e de respeito pelos discursos da maioria, e do Presidente da República visivelmente preocupados com o estado da Nação, nos comentários posteriores daqueles sobre o discurso do PR – que achei excelente – decididos a apear o Governo, “custe o que custar”, indiferentes ao custo e às consequências gravosas dessa acção. E logo a Opinião Pública no Canal 5 da SIC pôde dar largas a igual ódio “democrático”, que é feita de ódio a sua democracia, ódio orquestrado por toda essa “plebe” dos seus condutores de opinião. Ódio real pelos que defendem a honestidade, falsa solidariedade para com os espoliados dos seus direitos.
Pergunta Salles da Fonseca:
«Teremos entretanto conseguido fundamentar a liberdade de que queremos usufruir empreendendo uma síntese do que aprendemos entretanto para nos retomarmos como humanidade? Tenho esta como a questão portuguesa historicamente mais pertinente.»
É óbvio que não. Os componentes espirituais e racionais das elites vociferantes estão submersos sob a camada do sentimentalismo adiposo e chiante.
