Uma justa homenagem ao Prof. Eng.º Agrónomo e Silvicultor Joaquim Vieira Natividade
Em 19 de Novembro de 1993 completaram-se 25 anos sobre a morte de um cientista eminente, que devotou a sua vida à investigação científica nos campos da Agronomia e da Silvicultura.
Nascido em Alcobaça em 22 de Novembro de 1899, Joaquim Vieira Natividade completou em 1922 o curso de Engenheiro Agrónomo, com a apresentação e defesa duma tese sobre “A Região de Alcobaça. Agricultura, População e Vida Rural“. Nesse mesmo ano
completou tambem a licenciatura em Silvicultura, obtendo em 1929 o título de Engenheiro Silvicultor, com a apresentação e defesa duma tese sobre “O carvalho português nas matas do Vimeiro“.
Dividiu a sua actividade pelos dois sectores, a Agronomia e a Silvicultura. Na Agronomia os seus trabalhos centraram-se na Pomologia; na Silvicultura dedicou-se principalmente à Subericultura. Trabalhador incansável e de alto nível, em ambos esses sectores deixou uma obra da maior projecção, no País e no estrangeiro.
Numa iniciativa da Dr.ª Maria Luisa Azevedo Neves, apoiada pelo Ministério da Agricultura, ao mais alto nível e através de alguns dos seus organismos, entre eles a Estação Agronómica Nacional, a cujo quadro Natividade pertencia, chefiando, ao longo de 32 anos, o
Departamento de Pomologia, foi-lhe prestada homenagem no 25º aniversario da sua morte.
Iniciaram-se as comemorações em 19 de Novembro de 1993, no salão nobre do Ministério da Agricultura, em sessão solene presidida pelo Ministro da Agricultura e em que o Juiz Conselheiro Silvino Villa Nova fez uma conferência intitulada “Da vida e obra de Joaquim Vieira Natividade”.
Seguiu-se a abertura duma exposição, na sala do Marquês, onde se evocava a vida e a obra de Natividade e onde estavam expostas algumas obras, entre as quais tapeçarias de elevado valor artístico, da autoria da esposa do homenageado, D. Irene de Sá Vieira
Natividade. Apesar duma grave doença recente, que obrigou a hospitalização e de que não estava aínda completamente restablecida, D. Irene Natividade, que pouco tempo depois completaria 93 anos de idade, esteve presente em todas as manifestações da homenagem. A
exposição esteve patente ao público durante alguns dias.
Ao longo de todo o dia 25 de Novembro e na manhã de 26 de Novembro de 1993 realizaram-se na Estação Agronómica Nacional, em Oeiras, Colóquios em que foram apresentadas, por vários oradores, a vida e a obra de Natividade.
No dia 25 falaram:
- Eng.º António Avelar do Couto, sobre “Natividade e a Fruticultura”
- Prof. João Saldanha, sobre “Fomento frutícola”
- Dr. Rui Rasquilho, sobre “Vieira Natividade - Subsídios para a cultura alcobacense”
- Prof. Miguel Mota, sobre “Natividade e a Genética”
- Eng.º José Duarte Amaral, sobre “A vida e obra de Natividade - um exemplo para a juventude”
- Dr.ª Maria Teresa Cabral, sobre “Natividade e a Subericultura em Portugal”
- Prof. Gregório Montero, sobre “Natividade e a Subericultura em Espanha”
- Prof. Enzo S. Filipo, sobre “Natividade e a Subericultura em Itália”
- Eng.º J. Silva Carvalho, sobre “Mestre Natividade - Paixão e Ciência no Universo do Sobreiro”
Na manhã do dia 26 de Novembro, tambem na Estação Agronómica Nacional, em Oeiras, a sessão abriu com a projecção do maravilhoso filme “Flores - mundo de beleza” dirigido por Natividade.
Deveria falar seguidamente o Prof. Abílio Fernandes. Impossibilitado de estar presente por motivo de doença, foi lido o texto que preparara, intitulado “Natividade - O Académico”.
Falaram aínda, nessa manhã:
- Prof. Henri Gilbert, sobre o “Doutoramento Honoris Causa de Vieira Natividade na Universidade de Toulouse”
- Prof. Bairrão Oleiro, sobre “Natividade e o Museu de Alcobaça”
- Prof. Miguel Pereira Coutinho, sobre “Natividade. Um verdadeiro Mestre”.
Na tarde desse mesmo dia, novamente no salão nobre do Ministério da Agricultura, efectuou-se a sessão de encerramento da homenagem, presidida pelo Subsecretário de Estado da Agricultura e onde o Prof. Manuel Gomes Guerreiro proferiu uma conferência sobre “Joaquim Vieira Natividade. O último monge agrónomo de St.a Maria de Alcobaça, precursor em Portugal das Ciências Ecológicas”.
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Permita-se-me que elabore um pouco sobre o tema que me coube tratar nessa justa homenagem, “Natividade e a Genética”.
Se é bem conhecida, de técnicos e agricultores, a contribuição de Natividade nos campos da Pomologia e da Subericultura, são poucos os que conhecem a parte da sua obra no âmbito da Genética. Esse trabalho, embora de ciência básica, é de fundamental importância
para a agricultura, pois os estudos de cromossomas são essenciais para se conhecer o mecanismo da reprodução e compreender problemas de imediata aplicação, nomeadamente quando se trata de produtividade e de fertilidade, que estão estritamente dependentes do que se passa a a nível cromossómico, na meiose, para a formação das células sexuais.
Natividade iniciou os seus trabalhos de Genética com a publicação, em 1932, da tese, intitulada “A improdutividada em pomologia” com que se candidatou ao concurso para o lugar de Professor Catedrático do Instituto Superior de Agronomia. (Nesse concurso, Natividade, embora aprovado em mérito absoluto - o que lhe dava direito ao título - foi preterido, em mérito relativo, por um outro candidato que, como a vida futura se encarregou de amplamente demonstrar, era bem menos qualificado do que ele. Esse facto afectou-o muito
fortemente).
Nesse trabalho - que se tornou um clássico - estudou os cromossomas de um grande número de variedades de pereiras, macieiras, amendoeiras e ameixeixeiras. Em 1935 suplementa essa lista com o estudo de mais variedades de pereiras.
Em 1937 apresenta um estudo dos cromossomas de várias espécies de Quercus, entre elas o sobreiro ( Quercus suber L.) e a azinheira (Quercus ilex L.). Algumas dessas espécies nunca tinham sido estudadas na sua cariologia, pelo que o trabalho de Natividade se encontra citado nas listas de cromossomas das diferentes espécies.
Nos Quadros I, II e III (*) apresentam-se os números de cromossomas das espécies e variedades estudadas, respectivamente, em Pomoideas, Prunoideas e Quercíneas.
Todo esse trabalho foi realizado na década de 1930. Depois, a sua actividade foi desviada para outros campos, fundamentalmente as técnicas agronómicas de fruticultura e, na silvicultura, para tudo o que se relacionava com a subericultura. O trabalho neste último sector culminou na publicação de um monumental tratado de "Subericultura", o melhor que existe no mundo nessa matéria e, por isso, traduzido já em várias línguas.
Quem trabalha em Genética não pode deixar de lamentar que, com um tão promissor começo, Natividade não tivesse continuado nessa ciência. Mas não deixou de lhe ficar uma certa saudade, como é evidente nalgumas das cartas que dele tive o prazer e a honra de receber, como numa datada de Junho de 1956, a agradecer a separata dum trabalho meu publicado na "Heredity", em que dizia: "Aínda que hoje a Citologia não seja para mim mais do que uma grata recordação, pois fui empurrado pela vida para outros rumos, pude apreciar o interessante trabalho que agora me enviou e por isso lhe venho apresentar as minhas felicitações muito sinceras."
Noutras cartas, em que agradecia outros trabalhos meus, transparece a mesma ideia da "grata recordação", que lhe deixara a sua passagem pela Genetica, mais especìficamente pelos trabalhos de Citologia.
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Se alguns meios de trabalho poude ter - caso contrário seria impossível realizar o que realizou - eles foram sempre muito escassos e pode imaginar-se como seria a obra produzida se Natividade tivesse podido dispor daquilo de que necessitava e que seria um excelente
investimento. Esses bons meios de trabalho foram-lhe dados no fim da vida - e, segundo me escreveu noutra carta, "porque passei a entender-me directamente com o ministro..." - menos de dois anos antes de completar os 70 anos, a idade oficial para a aposentação. Infelizmente, nem esses dois anos utilizou os novos meios, pois faleceu em 19 de Novembro de 1968, quase exactamente um ano antes de atingir o limite de idade, que seria em 22 de Novembro de 1969.
Não foi só a Agronomia e a Agricultura que perderam um técnico de altíssimo nível. A Ciência portuguesa perdeu um dos seus maiores valores.
As comemorações do 25º aniversário dessa morte permitiram mostrar aos mais novos, especialmente nos campos da Agronomia e da Silvicultura mas, também, da Ciência em geral, um expoente máximo que a todos pode servir de exemplo.
Investigador Coordenador e Professor Catedrático, jubilado
Publicado na “Gazeta das Aldeias” de Julho de 1994
(*) Mostrando-se hoje muito difícil (por inexplicadas razões internéticas) publicar os Quadros com um alinhamento minimamente aceitável, pede-se aos Leitores que consultem os textos a seguir referidos
Quadros I e II - http://abemdanacao.blogs.sapo.pt/natividade-e-a-genetica-1-1131142
Quadro III - http://abemdanacao.blogs.sapo.pt/natividade-e-a-genetica-2-1131511
