Eis o comentário que me mereceu o longo texto do jornalista africano, Isomar Pedro Gomes, «SERÁ QUE DEUS É BRANCO?» na admiração por um atrevido “Salman Rushdie” da nossa roda, que se arrisca a perder a cabeça com as análises do seu “saber de experiências feito” e provavelmente também do sentimento de amizade – que foi o que mais se definiu entre os povos africanos e europeus com, todavia, o ferrete de exploradores recaindo sobre os últimos, por todos os que tinham conveniência em assim os marcarem:
Textos de um africano que, reconhecendo embora os defeitos inerentes aos homens, independentemente da cor, tem a honestidade de declarar que as consequências das descolonizações sobre os povos de África foram terríficas de sofrimentos e misérias várias, resultado, em grande parte, da absoluta libertinagem e ausência de escrúpulos dos chefes africanos sucedâneos aos colonialistas, na criação das suas próprias leis de selvajaria e autocracia impunes, a que as gentes dos outros continentes fecham democraticamente os olhos da muita virtude, preferindo resgatar alguns desses atribulados sofredores das selvajarias governativas com esmolas e cânticos favorecedores de esmolas, a impor regras de boa governação, provavelmente até fazendo distribuir simultaneamente pelos das ricas e poderosas chefias as armas desse poder criminoso que destroçou milhões dos povos que abandonámos a esses abutres, a pretexto de “generosas” intenções de libertação.
Em complemento das extraordinárias declarações de Isomar Pedro Gomes, e como homenagem à sua lúcida isenção, transcrevo o passo seguinte de um dos textos da minha jamais apaziguada desilusão (entenda-se “indignação”)– extraído do texto “Somos bons”, escrito em 1983, do livro “Anuário / Memórias Soltas” (Ed. Minerva, 1999):
… Em boa verdade, não nos interessam os problemas sociais dos povos, por muito cruéis e injustos que sejam, desde que o sejam apenas por conta própria. Não nos importa que os povos trabalhem ou vegetem, que progridam ou parasitem à sombra das nossas dádivas generosas. Admitimos como idiossincrasia civilizacional a exploração do homem aborígene, sanguessuga da mulher, mandrião e vil. Não nos incomoda esse, porque podemos sempre arvorar, perante ele e perante o mundo, a nossa comiseração paternalista. ….
Passamos a África e o quadro pouco diverge nas consequências. Em África há a seca, há atraso, há o batuque e a inapetência para o trabalho, há o tribalismo feroz e sobretudo há, nestes últimos anos, a luta pela liberdade, a ideia fixa dos direitos próprios contra a exploração colonialista, a convicção de que mais vale morrer sem pão mas livre do que sob o jugo alheio, por muito pão que forneça.
Claro que todas estas ideias de liberdade são relativas, como todas as ideias, e em nome delas se cometem crimes e vilezas que deixam os ex-colonos vexados pela inferioridade dos seus. Mas como se passam a nível interno, com o apoio, é certo, de colaboradores externos potentes, fechamos piedosamente os nossos olhos democráticos. ...
