ALGUNS TRABALHOS
INTRODUÇÃO
Não me sendo possível deixar de corresponder ao amável e muito honroso convite dos meus colegas Ricardo Serralheiro e Fernando Capela e Silva para escrever sobre a investigação agronómica em Portugal, sinto a enorme responsabilidade duma tal tarefa que, para ser exaustiva, exigiria meses ou anos de consultas. Consciente da certeza de produzir algo que fique longe do que seria desejado, tentarei, baseado numa longa vida de várias décadas envolvido nesse tipo de trabalho, indicar apenas "Alguns trabalhos de Investigação Agronómica em Portugal" em que procurarei listar alguns casos dessa enorme tarefa que, no seu sentido mais lato, tem por objectivo último fazer melhor agricultura. Apenas posso garantir que se trata duma pequena parcela dum muito maior universo, envolvendo muitos investigadores, nos múltiplos sectores da Investigação Agronómica.
*
Como todas as outras, a investigação agronómica é a fonte da agora tão apregoada "inovação", uma palavra que os nossos políticos começaram a usar quando "lá fora" se começou a falar, em inglês, em "innovation". Se na indústria ou na saúde é importante o país ter investigação científica, na agricultura ela é absolutamente necessária. É possível construir em Portugal automóveis, televisões ou telemóveis com tecnologia estrangeira. Mas, pelas diferenças específicas da combinação solo e clima, a agricultura exige experiência local e a importação directa da técnica estrangeira pode dar casos de verdadeiro desastre, como logo após o 25 de Abril aconteceu.
O facto de qualquer melhoria, mesmo pequena, ser aplicada a uma vasta área, causa na produção aumentos de tal montante que até o orçamento do estado colhe, nos impostos sobre esses aumentos, bem mais do que ali investiu. Enquanto a melhoria for aplicável, o aumento de rendimento líquido, para o agricultor e os impostos sobre esse aumento, para o estado, continuam a verificar-se, muito depois do gasto inicial. É esse o caso do único exemplo de que tenho conhecimento haver dados quantitativos dos resultados da investigação agronómica. Uma doença das vinhas do Douro chamada "maromba", que causava nas videiras muito pouco desenvolvimento e produções baixas, foi estudada na Estação Agronómica Nacional, então ainda em Sacavém. Eliminadas as possibilidades de um agente patogénico (fungo, bactéria ou vírus), foram investigadas as deficiências minerais e descobriu-se que a causa era uma deficiência de boro, um dos elementos químicos de que as plantas necessitam em quantidades muito pequenas mas que, quando faltam, causam perdas elevadas. Definida a terapêutica a aplicar, as videiras passaram a ter o seu desenvolvimento normal e aumentou a sua produção de uva. Como a Casa do Douro tem as vinhas e as suas produções todas catalogadas, contou-me o seu Presidente de então, o Eng.º Agrónomo Orlando Gonçalves, creio que na década de 1950, que a melhoria representava, para a viticultura do vinho do Porto, mais 28.000 a 30.000 contos por ano. E, note-se, o Douro continua hoje a beneficiar do resultado dessa investigação.
Um outro caso de grande projecção económica foi a criação da magnífica uva D. Maria, trabalho do Eng.º Agrónomo José Leão Ferreira de Almeida, na Estação Agronómica Nacional, em Oeiras. Essa uva de mesa, branca, de bagos muito grandes, foi obtida na descendência dum cruzamento da Rosaki com a Moscatel de Alexandria, que lhe confere um leve aroma do moscatel. Baptizou essa variedade com o nome de sua mãe. Há anos teve uma boa expansão a sua cultura e aparecia em grande quantidade nos mercados. Depois dum período em que quase desapareceu, voltou agora, mas ainda em quantidade não muito grande. Entretanto, os nossos mercados estão cheios de uvas de muito menor qualidade, grande parte delas importadas, o que é uma prova de que a nossa agricultura não tem sabido aproveitar todas as suas potencialidades, pois para a uva de mesa não há razão para importações, excepto nos períodos do ano em que as não podemos produzir.
Alguns tentaram denegrir a uva D. Maria declarando que um dos seus defeitos é os bagos soltarem-se com certa facilidade, o que é inconveniente para a venda a granel. Mas esse defeito remedeia-se vendendo-a em embalagens de plástico, como é hoje corrente. Também a acusam de susceptibilidade ao oídio, mas não é mais que muitas outras e o oídio não é muito difícil de combater. E as suas altas qualidades sápidas suplantam quaisquer desses defeitos.
Infelizmente, embora já o tivesse tentado anteriormente, não me foi possível saber qual a área cultivada com a uva D. Maria ao longo dos anos nem o que ela vale mais, por hectare, em relação às variedades que substituiu. Mas não me admira que esse valor seja, anualmente, superior ao pouco que o estado investe na Estação Agronómica.
Resta-me acrescentar que foi parado e destruído o trabalho que estava em marcha para a produção de mais outras variedades.
Continuando a referir alguns exemplos que demonstram o que a investigação agronómica pode fazer para transformar a agricultura e a nossa economia, lembro que um dos casos em que é mais fácil contabilizar os resultados económicos é o melhoramento de plantas. É fácil de contabilizar porque o problema se limita, geralmente, a substituir uma variedade por outra da mesma espécie e, portanto, basta comparar os lucros obtidos com a variedade nova com os da que ela foi substituir, por ser mais produtiva ou ter características que a tornem mais valiosa.
Em 1952, quando me encontrava a trabalhar na EMP, em Elvas, chefiando o Laboratório de Citogenética, propus, num Colóquio e num documento enviado ao Director, a criação dum pequeno Gabinete de Estudos Económicos (Mota 2000) cuja função seria medir, ano a ano, o que a agricultura e, consequentemente, a economia de Portugal, estavam a ganhar com as variedades de cereais e forragens lançadas pela Estação. Infelizmente, essa proposta não foi aceite e temos de nos contentar apenas com estimativas.
Em 1967, na celebração dos 25 anos da Estação de Melhoramento de Plantas, o então Secretário de Estado da Agricultura, falando do que a lavoura tinha recebido a mais com a cultura das variedades criadas na Estação, apresentou um valor estimado de cerca de um milhão de contos. Citando de memória, tenho ideia de ele ter referido que o total de gastos durante esse período teria sido de 25.000 contos, mas não tenho a certeza. De qualquer forma, a desproporção entre os dois valores é enorme e representa um investimento a render juros que os nossos economistas não sabem que existem, mas são reais.
Para quem deseje aprofundar o tema da investigação agronómica em Portugal posso sugerir a consulta de algumas Bibliografias parciais, de temas específicos, e diversas revistas científicas, a começar pela "Revista Agronómica", órgão da Sociedade de Ciências Agronómicas de Portugal, fundada em 1903 (hoje com o nome de "Revista de Ciências Agrárias"), os "Anais do Instituto Superior de Agronomia", iniciados em 1920, a "Agronomia Lusitana", a “Melhoramento” e algumas outras. Também constituem excelentes repositórios de trabalhos de investigação as Publicações da Direcção Geral dos Serviços Florestais. Particularmente importante é o volume editado pela Estação Agronómica Nacional em 1986, quando da celebração dos seus 50 anos (e já a sofrer extrema penúria), onde estão listados todos os trabalhos até essa data publicados (Borges et al 1986) e, em 2011, o volume "Agrorrural. Contributos científicos", editado na comemoração dos 75 anos da Estação Agronómica Nacional (Coelho & Reis 2011), que também contém valiosa informação.
Não posso deixar de referir uma obra monumental, "Le Portugal au point de vue agricole", editada em 1900, para a Exposição Internacional de Paris, coordenada por dois dos mais ilustres professores do Instituto Superior de Agronomia, Bernardino Camilo Cincinato da Costa e D. Luís de Castro. Com muito bons colaboradores, apresenta uma excelente visão da agricultura portuguesa da época. Creio que nunca mais se fez em Portugal uma obra semelhante.
Para uma listagem de toda a investigação agronómica portuguesa, lamento que Portugal não possua uma "Bibliografia Agrícola Portuguesa", à semelhança da "Bibliography of Agriculture" do Ministério da Agricultura dos Estados Unidos. Porque, há muito, sinto essa falta, propus em 1949 à Repartição de Estudos, Informação e Propaganda, da Direcção Geral dos Serviços Agrícolas, a sua elaboração. Como nada sucedeu, publiquei esse "Anteprojecto duma Bibliografia Agrícola Portuguesa" no "Agros" (Mota 1950).
Para que se transfiram, o mais cedo possível, para a utilização pela lavoura, os resultados de aplicação prática que a investigação considere concluídos, é necessário que o Ministério da Agricultura possua um outro serviço que hoje, no mundo, se chama "extensão agrícola" ou "extensão rural", do nome com que esse serviço foi criado nos Estados Unidos em 1914.
Trata-se dum serviço independente do de investigação (as características, metodologias e exigências são diferentes) mas que com ela deve ter boa articulação. Em tempos tive ocasião de presidir à organização do I e do "II Simpósio Nacional sobre a Articulação entre a Investigação e a Extensão na Agricultura", o primeiro na Estação Agronómica Nacional, em Oeiras, em 1997 e o segundo na Universidade de Évora, em 1998.
(continua)

Miguel Mota
Estação Agronómica Nacional, Oeiras e Universidade de Évora