Da baía de Halong rumámos ao aeroporto de Hanói para voarmos até Danang, o centro do Vietname. Despedimo-nos então de um dos melhores guias turísticos que alguma vez tivemos: professor universitário, amável e despretensioso que, esquecia-me de contar, tinha feito o Serviço Militar Obrigatório durante a guerra com a China passando à disponibilidade com o posto de Capitão.
E que guerra foi essa? Um pouco envergonhado por não saber, tentei perguntar sem dar muito nas vistas mas acabei por ter que ir à Internet procurar. No dia seguinte àquele em que o Juan referira uma batalha perdida em que ele próprio participara, já me senti mais à-vontade para fazer perguntas.
A Guerra sino-vietnamita de 1979 durou só um mês, de 17 de Fevereiro a 16 de Março, com ambos os lados a cantarem vitória na certeza, porém, de que as forças chinesas retiraram do Vietname e as forças vietnamitas continuaram no Camboja para confirmarem o afastamento de Pol Pot.
Na origem do conflito estava a velha rivalidade entre a China e a URSS que apoiava o Vietname na expulsão do poder no Camboja do pró-chinés Pol Pot. Invadindo o Vietname, Pequim enviava um sinal claro a Moscovo de que não iria aceitar passivamente um aumento da influência do Partido Comunista da União Soviética numa área que a China considerava dentro da sua esfera de influência mas devem ter percebido que sai caro a quem se mete com os discípulos de Nguyen van Giap e retiraram estrategicamente de modo a não correrem o risco duma derrota que não pudessem ocultar. Assim, apregoaram urbi et orbe que tinham emboscado as forças vietnamitas num vale fronteiriço e regressaram rapidamente à China antes que os confrontos formais se transformassem nas acções de guerrilha em que os vietnamitas já se tinham especializado.
E, afinal, tinha sido precisamente nesse acontecimento que o «nosso» Juan participara como emboscado. Não há dúvida, o mundo é pequeno.
Ao longo de toda a viagem, cruzei-me com outros participantes na guerra sino-vietnamita mas com ninguém que dissesse ter lutado contra os americanos. Os chineses continuam a ser os inimigos locais e não outros povos.
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Danang é um dos tais nomes que sempre ouvíamos nos telejornais durante a guerra americana no Vietname pois era uma base aérea muito grande e relativamente próxima da fronteira (paralelo 17) com o então Vietname do Norte.
Vista do ar, à noite, é um espectáculo de luzes que nada tem a ver com a tristeza cinzenta que eu imaginava ser a cor dominante dum país que, afinal, já nada tem de comunista. Daí a uns dias, percorri de ponta a ponta uma avenida longuíssima e larga de três ou quatro faixas em cada sentido que tinha sido a pista dos aviões da tal base americana entretanto desmantelada.
Terá sido desta mesma base aérea que levantou voo o bombardeiro B52 que se despenhou quase intacto num dos 17 lagos de Hanói e cuja profusa aparelhagem electrónica os soviéticos se apressaram a vasculhar. E como esse lago é vizinho do palácio da Presidência vietnamita em cujos jardins se localizava a residência de Ho Chi Minh, este apanhou um enorme susto e decidiu passar-se para uma outra casa que dispunha de um túnel de fuga em cuja boca ele mandou instalar um catre para se poder esconder em qualquer momento. O Conselho de Ministros passou a reunir nos baixos dessa casa e ele acabou por morrer (de tuberculose, cancro de pulmão ou suicídio) nesse tal catre.
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O «mar» de motorizadas e motos é impressionante – com muitas completamente fora de mão como se isso fosse a coisa mais natural da vida – e se já hoje o trânsito é impraticável para qualquer estrangeiro, dá para imaginar o que será quando as motos e motorizadas se transformarem em automóveis. Creio que será o engarrafamento completo e então, sim, será possível um estrangeiro sentar-se ao volante de um carro... parado. Por enquanto, o forasteiro que se aventure apenas a atravessar uma rua «dançando» com o trânsito: terá emoção que baste, não precisa de mais nada para se sentir um glorioso vencedor das agruras deste mundo..
(continua)
Lisboa, 9 de Dezembro de 2014
Henrique Salles da Fonseca
(Hanói - Presidência da República)

