Descidos das etéreas espiritualidades inerentes às visitas que nos programaram a vários pagodes (onde se confessam os pecados em oração ao Senhor Buda e se proclama o arrependimento) e templos (onde se pedem benesses ao Orago em apreço), rumámos à Baía de Halong para um cruzeiro que nos mostrasse as belezas naturais da região, o que faço por imagens...
Nosso barco na Baía de Halong
Baía de Halong
Grutas
Metidos no barco durante tempo excessivo para meu gosto, aproveitámos para conversar informalmente com o nosso guia, o franzino e insignificante Juan, tirando-lhe «nabos da púcara» que ele não haveria de referir se não perguntado.
Assim, explicou que o budismo vietnamita lê as condições estruturais da vida de cada um, o karma, logo à nascença em função da posição dos astros na data e hora do nascimento, das condições climáticas, das origens familiares, etc. Portanto, cada um tem a sua «folha» devidamente preenchida e não há como fugir. Na dúvida, para afugentar os maus espíritos, à criança é inicialmente dado um nome feio que a proteja de acidentes, maus-olhados, doenças e morte. No caso dele, Juan, chamaram-lhe Esqueleto. Só quando ultrapassa a idade mais perigosa é que se dá um nome normal à criança que vigorará para o resto da vida. No caso dele, como a avó era católica, chamaram-lhe João e também lhe puseram o nome budista de Yin para não se sentir desenquadrado da maioria social. Escapou-me o apelido.
- E como é que Você fala tão bem espanhol?
- Estive em Cuba.
- A fazer o quê?
- Nos primeiros tempos a aprender espanhol e depois a fazer o curso de microbiologia com uma especialização em biologia marinha.
- E essa formação foi importante para si?
- Sim, estudei as águas em diversas acções científicas ao longo da costa vietnamita e depois passei a dar aulas de Microbiologia na Universidade de Hanói, onde continuo.
- E como concilia as aulas com a actividade de guia turístico?
- Os meus cursos são trimestrais e no resto do tempo aproveito para isto.
- E para que estuda mais: para a Biologia ou para o Turismo?
- Para a Biologia tenho que estudar muito mais para não me desactualizar enquanto que a conversa turística é quase sempre a mesma.
- E esta actividade é importante para si?
- Sim, claro! Tenho quatro mulheres em casa.
- A poligamia é permitida no Vietname?
(risos)
- Não, não! Tenho a minha mãe, a minha mulher e duas filhas.
- E a casa é sua?
- Sim, herdei-a do meu pai que a construiu conforme o seu karma. Mas como o meu karma é diferente do dele, tive que colocar um espelho sobre a porta para afastar os maus espíritos que não me queiram a viver ali.
- Esses espelhos que se vêem sobre as portas significam então que as casas não foram construídas de acordo com os proprietários actuais?
- Exacto. A habitação está totalmente privatizada no Vietname assim como a agricultura. Nós somos donos das nossas propriedades e podemos vendê-las livremente.
- Mas então o Vietname não é um país comunista?
- Ho Chi Minh nunca quis um Vietname comunista à maneira da China ou da Rússia. Nós somos uma sociedade socialista, não comunista.
- E o que há de diferente nisso?
- Tudo: nós enterrámos há muito o comunismo e vivemos em economia de mercado com preocupações sociais. Mas tocaram para o jantar e a continuação da conversa fica para amanhã.
Tive dúvidas que o Juan quisesse continuar a conversar sobre o regime mas, afinal, a iniciativa foi mesmo dele como amanhã se verá.
(continua)
Lisboa, 7 de Dezembro de 2014
Henrique Salles da Fonseca
(à entrada das grutas)



