A bem da Nação

INDOCHINA – 6

 


 


 


Descidos das etéreas espiritualidades inerentes às visitas que nos programaram a vários pagodes (onde se confessam os pecados em oração ao Senhor Buda e se proclama o arrependimento) e templos (onde se pedem benesses ao Orago em apreço), rumámos à Baía de Halong para um cruzeiro que nos mostrasse as belezas naturais da região, o que faço por imagens...


 


Nosso barco na Baía de Halong.JPG


Nosso barco na Baía de Halong


 


Baía de Halong.jpg


Baía de Halong


 


Grutas em Halong.jpg


Grutas


 


Metidos no barco durante tempo excessivo para meu gosto, aproveitámos para conversar informalmente com o nosso guia, o franzino e insignificante Juan, tirando-lhe «nabos da púcara» que ele não haveria de referir se não perguntado.


 


Assim, explicou que o budismo vietnamita lê as condições estruturais da vida de cada um, o karma, logo à nascença em função da posição dos astros na data e hora do nascimento, das condições climáticas, das origens familiares, etc. Portanto, cada um tem a sua «folha» devidamente preenchida e não há como fugir. Na dúvida, para afugentar os maus espíritos, à criança é inicialmente dado um nome feio que a proteja de acidentes, maus-olhados, doenças e morte. No caso dele, Juan, chamaram-lhe Esqueleto. Só quando ultrapassa a idade mais perigosa é que se dá um nome normal à criança que vigorará para o resto da vida. No caso dele, como a avó era católica, chamaram-lhe João e também lhe puseram o nome budista de Yin para não se sentir desenquadrado da maioria social. Escapou-me o apelido.


- E como é que Você fala tão bem espanhol?


- Estive em Cuba.


- A fazer o quê?


- Nos primeiros tempos a aprender espanhol e depois a fazer o curso de microbiologia com uma especialização em biologia marinha.


- E essa formação foi importante para si?


- Sim, estudei as águas em diversas acções científicas ao longo da costa vietnamita e depois passei a dar aulas de Microbiologia na Universidade de Hanói, onde continuo.


- E como concilia as aulas com a actividade de guia turístico?


- Os meus cursos são trimestrais e no resto do tempo aproveito para isto.


- E para que estuda mais: para a Biologia ou para o Turismo?


- Para a Biologia tenho que estudar muito mais para não me desactualizar enquanto que a conversa turística é quase sempre a mesma.


- E esta actividade é importante para si?


- Sim, claro! Tenho quatro mulheres em casa.


- A poligamia é permitida no Vietname?


(risos)


- Não, não! Tenho a minha mãe, a minha mulher e duas filhas.


- E a casa é sua?


- Sim, herdei-a do meu pai que a construiu conforme o seu karma. Mas como o meu karma é diferente do dele, tive que colocar um espelho sobre a porta para afastar os maus espíritos que não me queiram a viver ali.


 


espelho vietnamita.jpg


 


- Esses espelhos que se vêem sobre as portas significam então que as casas não foram construídas de acordo com os proprietários actuais?


- Exacto. A habitação está totalmente privatizada no Vietname assim como a agricultura. Nós somos donos das nossas propriedades e podemos vendê-las livremente.


- Mas então o Vietname não é um país comunista?


- Ho Chi Minh nunca quis um Vietname comunista à maneira da China ou da Rússia. Nós somos uma sociedade socialista, não comunista.


- E o que há de diferente nisso?


- Tudo: nós enterrámos há muito o comunismo e vivemos em economia de mercado com preocupações sociais. Mas tocaram para o jantar e a continuação da conversa fica para amanhã.


 


Tive dúvidas que o Juan quisesse continuar a conversar sobre o regime mas, afinal, a iniciativa foi mesmo dele como amanhã se verá.


 


(continua)


 


Lisboa, 7 de Dezembro de 2014


 


Vietname-Henrique à entrada das grutas na Baía d


Henrique Salles da Fonseca


(à entrada das grutas)

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